Simples Nacional pode perder competitividade com reforma tributária; entenda
20/07/2026 06:284 min de leituraAtualizado há 44 dias
Vale para: Simples Nacional
Fonte: Contadores CNT · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Reforma Tributária, atualizado a cada mudança de norma.
Se a sua empresa está no Simples Nacional, existe um ponto da reforma tributária que merece atenção imediata: o jeito como o novo sistema trata os créditos de impostos pode mudar a forma como grandes clientes enxergam sua empresa como fornecedora. Isso não é um detalhe técnico distante, é algo que pode afetar contratos e negociações já nos próximos anos.
O Brasil aprovou a maior reforma tributária de sua história, unificando IPI, PIS, Cofins, ICMS e ISS em dois novos tributos sobre consumo: o IBS e a CBS. Para grandes empresas, essa discussão já vem sendo tratada há tempos. Mas entre os 18,2 milhões de negócios enquadrados no Simples Nacional, que respondem por cerca de 84% das empresas ativas do país, o assunto ainda não recebeu a atenção que merece. E essa diferença de informação é um risco real para quem depende de vendas para outras empresas.
O que muda de fato
A grande novidade da reforma é permitir que empresas aproveitem créditos tributários de forma muito mais ampla ao longo da cadeia produtiva. Na prática, insumos, mercadorias, serviços e até energia elétrica passam a gerar créditos que podem ser abatidos do imposto a pagar. A ideia é acabar com distorções que hoje prejudicam a concorrência e tornam o sistema mais caro do que deveria.
O problema é que o Simples Nacional, como regra geral, continuará funcionando do jeito simplificado de sempre: recolhimento sobre o valor total das vendas, sem a mesma engrenagem de créditos do novo modelo. Isso, por si só, não é nenhuma surpresa. A questão é o ambiente competitivo que se forma a partir disso.
Quando uma empresa do Simples vende para uma indústria, distribuidora, atacadista ou prestadora de serviços que está no regime regular, o crédito que esse cliente consegue aproveitar tende a ser menor do que se ele comprasse de um fornecedor fora do Simples. Na prática, isso pode tornar sua empresa uma opção fiscalmente menos vantajosa aos olhos de quem compra, mesmo que seu produto ou serviço seja igual ou melhor que o da concorrência.
Quem sente mais esse impacto
Esse efeito preocupa principalmente empresas inseridas em cadeias empresariais, o famoso B2B, que vendem para outras empresas em vez de vender diretamente ao consumidor final. Segundo levantamento do IBPT, esse perfil representa cerca de 70% das empresas do Simples Nacional, com destaque para os setores industrial, tecnológico, logístico e de serviços corporativos.
A lei já previu uma saída para esse impasse: empresas do Simples podem optar por apurar o IBS e a CBS pelo regime regular, mantendo o restante da tributação no modelo simplificado. Mas essa decisão está longe de ser simples. Empresas que vendem majoritariamente para o consumidor final talvez não tenham motivo para mudar nada. Já quem depende de clientes corporativos precisa avaliar com cuidado se vale a pena migrar, considerando o perfil dos clientes, a estrutura de custos, a capacidade de gerar créditos relevantes e o custo de cumprir obrigações mais complexas.
Prazos que exigem atenção desde já
A transição começa a valer a partir de agosto de 2026, quando PIS e Cofins começam a ser substituídos pela CBS. Entre 2029 e 2032, será a vez do ICMS e do ISS migrarem para o IBS, até que, em 2033, o novo modelo passe a valer de forma integral. Esses prazos podem parecer distantes, mas o período de convivência entre o sistema atual e o novo é justamente a fase mais delicada: as empresas vão precisar lidar com regras antigas e novas ao mesmo tempo, ajustar sistemas, revisar documentos fiscais e entender novas obrigações acessórias que ainda estão sendo definidas.
É importante deixar claro que o Simples Nacional não foi extinto e continua protegido pela Constituição, que reforça princípios como simplicidade e tratamento favorecido às pequenas empresas. Mas essa proteção jurídica não substitui o planejamento que cada negócio precisa fazer para não perder espaço no mercado.
Como se preparar
O maior risco agora não é a reforma em si, é o desconhecimento. Pesquisas de entidades empresariais e contábeis mostram que a informação sobre esse assunto ainda circula de forma desigual, e quanto menor a empresa, menor costuma ser o acesso a esse debate técnico. Por isso, o primeiro passo é buscar um diagnóstico tributário com o apoio de um contador ou advogado tributarista, para responder perguntas concretas: quem são seus clientes e eles dependem de crédito tributário para negociar com você? Sua estrutura de custos gera créditos relevantes no novo sistema? Sua empresa tem estrutura para cumprir obrigações acessórias mais complexas? Seus sistemas fiscais já estão preparados para essa mudança?
A reforma tributária é uma chance histórica de simplificar o sistema brasileiro, mas seus efeitos não vão ser iguais para todo mundo. Enquanto grandes empresas vão lidar principalmente com ajustes operacionais, milhões de negócios do Simples Nacional podem enfrentar uma questão mais séria: manter sua posição competitiva e sua sustentabilidade econômica no novo cenário. A reforma já começou. A pergunta que fica não é se sua empresa vai sentir os efeitos, mas se você vai estar preparado quando eles chegarem.
Aviso: conteúdo informativo, produzido a partir de fontes públicas e reescrito pela nossa editoria. Não substitui orientação contábil ou fiscal personalizada. Tem uma dúvida sobre o assunto? Pergunte no portal.
