Inteligência emocional na era da IA: o que empresas podem aprender com o Bank of America
23/08/2026 05:004 min de leituraAtualizado há 10 dias
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Trabalhista e Folha, atualizado a cada mudança de norma.
Enquanto muitas empresas correm para treinar equipes em ferramentas de inteligência artificial, o Bank of America aposta em outra frente: a inteligência emocional. O banco, com 211 mil funcionários, disponibiliza um catálogo com cerca de 8 mil cursos internos, e o tema aparece consistentemente entre os três mais procurados pelos próprios colaboradores. A lógica por trás dessa escolha interessa a qualquer gestor que esteja implementando IA no dia a dia da empresa: quanto mais a tecnologia automatiza tarefas, mais valor ganham habilidades como comunicação, julgamento e relacionamento.
Por que isso importa para o seu negócio
A área responsável pelos treinamentos no banco, chamada The Academy, não trata a IA como um tema isolado de capacitação. Segundo Bernard Hampton, líder da área, a inteligência artificial já está incorporada à forma como o trabalho é feito, o que muda o papel das pessoas: elas passam a definir o que precisa ser feito, validar os resultados gerados pela IA, resolver exceções e tomar decisões finais. O banco resume esse modelo com uma frase direta: "a IA auxilia, as pessoas decidem". Para empresas de qualquer porte, essa é uma forma prática de pensar a adoção de IA sem perder o controle sobre processos que envolvem risco, dinheiro ou relacionamento com clientes.
No setor financeiro, essa cautela tem um motivo óbvio: trata-se do dinheiro dos clientes. Por isso, mesmo com IA acelerando análises e tarefas repetitivas, a responsabilidade final e a construção de relacionamento continuam nas mãos de pessoas. Esse raciocínio vale para outros setores: quanto mais sensível ou pessoal for a decisão, maior a necessidade de julgamento humano bem treinado.
Como funciona o treinamento na prática
O banco estruturou uma "Biblioteca de Habilidades" a partir do mapeamento das competências necessárias para cada função. A inteligência emocional entra nessa biblioteca como um curso de duas horas, com instrutor, e faz parte obrigatória da integração de novos funcionários e de qualquer mudança de cargo, ou seja, não é opcional. Há também uma versão autoguiada, em que o profissional analisa suas próprias necessidades emocionais e seu estilo de comunicação, buscando ajustar a forma como influencia outras pessoas.
Outro curso popular trata especificamente de momentos de discordância, oferecendo uma estrutura para conversas difíceis sem gerar conflito. Cerca de 2 mil estagiários já passaram por esse treinamento durante a integração em programas de férias. O banco também oferece cursos sobre resolução de conflitos, tomada de decisão sob pressão e trabalho colaborativo, todos conectados à mesma ideia central: preparar as pessoas para interações humanas complexas.
Um dos recursos mais originais é o uso de realidade virtual para simular situações reais de atendimento, disponível em cerca de 4 mil centros financeiros do banco, com aproximadamente mil conclusões por ano. A ideia é permitir que o funcionário pratique conversas difíceis em um ambiente controlado antes de enfrentá-las de verdade com um cliente.
O banco foi além e criou uma ferramenta baseada em IA que permite ao funcionário treinar sozinho, quantas vezes quiser, situações de atendimento que costumavam depender do feedback do gestor. Em vez de esperar que o líder aponte um erro, o colaborador pode simular a conversa com um modelo de linguagem em privado, ajustando sua abordagem antes de repetir o erro com um cliente real. Essa ferramenta já é usada centenas de milhares de vezes por ano dentro do banco, um indicativo de que o formato de prática individual e sem exposição tem boa aceitação entre as equipes.
O que fica de lição para outras empresas
A mensagem central de Hampton para líderes que estão automatizando processos é que a responsabilidade pelos resultados continua sendo das pessoas, nunca dos sistemas automatizados. Isso exige que os times desenvolvam a capacidade de discernir quais tarefas podem ir para a IA e quais exigem julgamento humano. Para avaliar se esse investimento vale a pena, Hampton sugere que a métrica não deve olhar apenas para custo economizado, mas também para o valor criado e o tempo devolvido às pessoas, algo que a inteligência emocional ajuda a transformar em resultado real. Para gestores que estão desenhando programas de capacitação em suas empresas, o caso mostra um caminho concreto: treinar tecnologia sem treinar as pessoas para usá-la com julgamento é deixar metade do trabalho pela metade.
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