Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Trabalhista e Folha, atualizado a cada mudança de norma.
Existe um descompasso incômodo dentro das empresas brasileiras: as pessoas já incorporaram a inteligência artificial à rotina, mas as organizações ainda não. Um levantamento do Cetic.br mostrou que apenas 17% das empresas do país usam IA de forma estruturada em seus processos. Ao mesmo tempo, uma pesquisa do Google em parceria com o Ipsos apontou que 78% dos brasileiros já usam ferramentas de inteligência artificial no cotidiano. Ou seja, os funcionários chegaram na frente. As empresas, não.
Esse atraso não é um problema de tecnologia disponível, muito menos de custo. Modelos de IA estão acessíveis e cada vez mais baratos de implementar. O gargalo está em outro lugar: no setor que, em tese, deveria conduzir essa mudança com mais propriedade, mas que na prática está tomado por demandas do dia a dia. Estamos falando do RH.
Por que o RH ficou de fora da própria transformação
Entre as empresas que já usam algum tipo de inteligência artificial, segundo o mesmo levantamento do Cetic.br, 80% compraram softwares prontos e 60% contrataram fornecedores externos para essa implementação. Na prática, a IA entrou pela porta dos fundos: via contrato de terceirização, via ferramenta pontual, sem que o RH participasse da decisão sobre como essa tecnologia deveria se encaixar na estratégia de pessoas da empresa.
O problema é que decidir isso exige tempo, diagnóstico e liderança interna, justamente os recursos que faltam à área. O RH continua absorvido por tarefas operacionais, como fechamento de folha de pagamento, triagem de candidatos e gestão de toda a jornada do colaborador, atividades que a própria inteligência artificial poderia automatizar. O resultado é uma ironia estrutural: o setor com mais conhecimento sobre cultura, fluxos internos e pontos de fricção da empresa é o que tem menos espaço para aplicar esse conhecimento na adoção de novas tecnologias.
O impacto na produtividade das empresas brasileiras
Esse descompasso tem um preço. O Productivity Ranking 2024, elaborado pelo The Conference Board, mostrou que cada hora trabalhada no Brasil gera US$ 21 em riqueza, contra US$ 91 nos Estados Unidos. A diferença não é apenas tecnológica, ela também reflete como as empresas organizam o trabalho humano.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Empresas brasileiras com IA estruturada nos processos | 17% |
| Brasileiros que já usam IA no dia a dia | 78% |
| Empresas que adotaram IA via compra de software pronto | 80% |
| Empresas que adotaram IA via fornecedor externo | 60% |
| Riqueza gerada por hora trabalhada no Brasil | US$ 21 |
| Riqueza gerada por hora trabalhada nos EUA | US$ 91 |
Para quem gere um negócio, esses números dizem algo simples: comprar uma ferramenta de IA não resolve o problema de fundo. Sem o RH no centro da decisão, a tecnologia acaba resolvendo processos isolados, mas não transforma a organização como um todo. Só quem conhece a fundo a rotina da empresa, as competências dos times e os pontos de atrito consegue redesenhar funções e redistribuir tarefas quando a IA entra em cena.
O que isso significa para o seu negócio
Se você é empresário ou gestor, esse cenário é um convite a olhar para dentro antes de olhar para fora. Antes de contratar mais uma ferramenta ou consultoria de IA, vale perguntar: meu RH tem tempo e espaço para pensar estrategicamente sobre essa adoção, ou está afogado em tarefas operacionais como folha de pagamento e processos burocráticos de pessoal? Esse tipo de desperdício em gestão de processos de RH é estimado em mais de cinquenta bilhões de reais por ano no país, um indicativo de quanto ainda se perde por falta de estrutura e automação bem pensada.
Vale destacar também um encontro recente que reuniu mais de 500 lideranças de RH, além de pesquisadores e professores de Stanford, para discutir justamente esse desafio. A adesão ao debate confirma que o setor já reconhece o problema, mas ainda busca caminhos práticos para resolvê-lo dentro das empresas.
Na prática, isso muda a forma como você deve pensar a área de gestão de pessoas do seu negócio. Não se trata apenas de digitalizar processos de folha ou recrutamento, mas de dar ao RH o tempo e a autonomia necessários para planejar como a inteligência artificial vai se integrar à cultura e à estrutura da empresa. Quem conseguir fazer essa lição de casa primeiro tende a sair na frente na próxima etapa de competitividade, que não depende apenas de qual tecnologia foi comprada, mas de como a organização se prepara para usá-la de forma inteligente.
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