IA na contabilidade: 78% dos contadores já usam, mas faltam treino e domínio
02/09/2026 09:364 min de leituraAtualizado há 21 horas
Fonte: Jornal Contábil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Reforma Tributária, atualizado a cada mudança de norma.
Se você ainda pensa em inteligência artificial como algo distante da rotina contábil, os números mostram outra realidade. Uma pesquisa feita pela IOB, em parceria com a Fenacon e o CFC, ouviu 393 profissionais de contabilidade de todas as regiões do país entre abril e maio de 2026 e descobriu que 78% deles usam ferramentas de IA no trabalho pelo menos uma vez por semana. Mais da metade, 53%, recorre a essas ferramentas todos os dias. A tecnologia deixou de ser promessa e passou a fazer parte do dia a dia de quem cuida das finanças da sua empresa.
Por que isso importa para o seu negócio
Esse movimento não é uma curiosidade de bastidor: ele afeta diretamente a forma como seu escritório de contabilidade entrega valor a você. A pesquisa mostra que os maiores gargalos da rotina contábil hoje são o excesso de retrabalho manual (34%), a falta de tempo para análise e consultoria (20%), a dificuldade de integrar sistemas e dados (17%) e erros humanos em tarefas repetitivas (15%). Quando a IA assume parte dessas tarefas operacionais, o contador ganha tempo para olhar com mais atenção para o seu negócio, em vez de ficar preso a planilhas e lançamentos manuais.
A boa notícia é que a percepção do setor sobre esse avanço é majoritariamente positiva. Para 42% dos entrevistados, a IA vai mudar de forma significativa o modelo de trabalho da contabilidade, e 37% a veem como aliada para aumentar produtividade e reduzir custos. O medo de que a tecnologia substitua o profissional é pequeno: apenas 2% consideram a IA uma ameaça ao emprego. A maior parte acredita que ela vai valorizar ainda mais o papel do contador, seja aumentando seu peso estratégico (58%) ou automatizando tarefas enquanto o profissional continua essencial para interpretar os dados (29%).
O ponto de atenção: conhecimento e segurança
Apesar do uso disseminado, a pesquisa expõe uma lacuna importante: 62% dos profissionais classificam seu conhecimento sobre IA como básico e apenas 5% dizem ter domínio avançado do assunto. Isso acontece, em boa parte, porque falta estrutura de treinamento: 68% dos entrevistados relatam que suas empresas não oferecem capacitação na área, 17% dizem que há intenção de implementar algo no futuro e só 12% já contam com programas estruturados. Na prática, isso significa que muita gente está usando uma ferramenta poderosa sem o preparo necessário para tirar o máximo proveito dela, ou para evitar riscos.
A segurança da informação é outro ponto sensível. Os principais receios apontados pelos contadores são o vazamento de dados de clientes (33%), o uso indevido de informações confidenciais (22%) e decisões automatizadas sem supervisão humana (22%). Isso deveria acender um alerta para você, empresário: os dados da sua empresa, muitas vezes sensíveis, passam por essas ferramentas. Ainda assim, o nível de confiança nas soluções atuais é alto, com 83% dos profissionais se dizendo muito ou razoavelmente confiantes na segurança do que usam.
O que muda no perfil do contador
Com a automação assumindo tarefas repetitivas, o mercado está redesenhando as habilidades mais valorizadas no contador. A interpretação de dados lidera a lista de competências consideradas prioritárias para os próximos anos, com 32% das citações, seguida por pensamento crítico (21%), comunicação e consultoria (20%) e tomada de decisão estratégica (20%). Ou seja, o profissional que atende sua empresa está sendo cada vez mais chamado a pensar e aconselhar, e menos a apenas processar informações. Vale lembrar que a maioria dos entrevistados, 69%, atua em empresas de contabilidade, enquanto 31% trabalham em outros segmentos corporativos, o que reforça que essa transformação atravessa todo o mercado, e não apenas escritórios contábeis.
Para você, gestor ou empresário, esse cenário traz um recado prático: a contabilidade que atende seu negócio está mudando de perfil, e isso pode ser positivo se bem conduzido. Um contador que usa IA para reduzir retrabalho tem mais tempo para conversar com você sobre estratégia, tributos e decisões financeiras, em vez de ficar apenas cumprindo obrigações operacionais. Mas é importante perguntar ao seu escritório como ele lida com capacitação da equipe e com a segurança dos dados da sua empresa antes de assumir que tudo está automaticamente sob controle.
No fim das contas, a inteligência artificial já não é uma opção distante para a contabilidade brasileira, é rotina. O desafio agora está em transformar esse uso amplo em conhecimento sólido e em proteção adequada de dados, para que a tecnologia realmente amplie o valor entregue a quem depende do trabalho contábil, o seu negócio.
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