Fonte: Jornal Contábil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Simples Nacional, atualizado a cada mudança de norma.
Antes de pensar em qualquer estratégia tributária, existe uma pergunta que precisa ser respondida primeiro: quanto a sua empresa fatura por ano? Essa resposta é o ponto de partida para saber quais regimes tributários estão à disposição do seu negócio e, mais do que isso, o quanto você vai pagar de imposto dentro de cada um deles. Muitos empresários só percebem o peso dessa relação quando já estão diante de uma conta de imposto maior do que esperavam ou de uma notificação de exclusão de regime.
Por que o faturamento pesa tanto na conta
Cada um dos regimes tributários existentes no Brasil tem um teto de receita bruta anual. Ultrapassar esse teto significa perder automaticamente o direito de continuar naquele regime, mesmo que você não tenha percebido o problema no momento em que ele ocorreu. Mas o faturamento não define apenas se a empresa pode ou não optar por um regime: em alguns casos, ele também determina qual alíquota será aplicada. Ou seja, faturar mais pode significar pagar, proporcionalmente, mais imposto, mesmo dentro do mesmo regime.
No Simples Nacional, por exemplo, existe um detalhe que passa batido por muitos gestores: o sublimite de R$ 3,6 milhões. Empresas que superam essa marca, mas ainda ficam abaixo do teto geral de R$ 4,8 milhões, continuam no Simples para os tributos federais, mas passam a recolher ICMS e ISS separadamente, fora da guia única (DAS), seguindo as regras específicas de cada estado ou município. Na prática, isso aumenta a complexidade da rotina contábil bem antes de a empresa sequer se aproximar do limite oficial do regime.
Como o faturamento acumulado muda a alíquota
Dentro do Simples Nacional, existe um indicador chamado RBT12, que representa a receita bruta acumulada nos últimos 12 meses. Quanto maior esse número, mais alta é a faixa em que a empresa se enquadra dentro do anexo correspondente à sua atividade, e maior a alíquota nominal aplicada sobre o faturamento. É por isso que duas empresas do mesmo setor, com o mesmo tipo de atividade, podem pagar percentuais de imposto bem diferentes, simplesmente porque uma acumulou mais receita nos últimos 12 meses do que a outra.
Quando a receita acumulada ultrapassa o teto do Simples Nacional, a empresa perde o direito de seguir no regime, e essa mudança pode acontecer de forma automática, sem que você perceba de imediato. Dependendo do quanto o faturamento excedeu o limite, o desenquadramento pode valer já a partir do mês seguinte ou apenas no ano-calendário seguinte. Esse tipo de situação costuma surpreender negativamente empresas que cresceram de forma concentrada em poucos meses do ano, sem enxergar o problema chegando.
Assim que isso acontece, a empresa migra automaticamente para o Lucro Presumido ou o Lucro Real. Essa transição costuma gerar bastante dúvida, porque a carga tributária final vai depender muito da margem de lucro real do negócio, e não apenas do faturamento em si. Negócios que cresceram rápido e ainda não estruturaram controles financeiros mais robustos tendem a sentir esse impacto com mais força, já que esses dois regimes exigem obrigações acessórias muito mais complexas do que a guia única do Simples.
Há ainda um ponto de atenção específico para quem já está no Lucro Presumido: desde 2026, passou a valer um acréscimo de 10% nos percentuais de presunção usados no cálculo de IRPJ e CSLL, aplicado apenas sobre a parcela do faturamento anual que ultrapassar R$ 5 milhões. Isso significa que, mesmo permanecendo no mesmo regime, faturar mais pode significar pagar proporcionalmente mais imposto sobre esse excedente.
Como projetar o faturamento antes de decidir
Olhar apenas para o faturamento do ano anterior não é suficiente para tomar uma boa decisão. O caminho mais seguro é projetar a receita dos próximos 12 meses, considerando sazonalidade, novos contratos fechados e as tendências de crescimento do próprio negócio. Um bom ponto de partida é separar a receita em dois grupos: a recorrente, que tende a se repetir mês a mês, e a pontual, como uma venda grande isolada ou um contrato de curto prazo. Misturar esses dois tipos de receita na projeção costuma distorcer o resultado, já que um faturamento inflado por um evento único pode empurrar a empresa para um teto que ela não vai sustentar nos meses seguintes.
Vale também trabalhar com três cenários diferentes, em vez de fechar a conta em um único número. Um cenário conservador, baseado no histórico recente sem grandes mudanças; um cenário realista, que já contempla contratos assinados e negociações em andamento; e um cenário otimista, que soma expansões possíveis, mas ainda não confirmadas. Simular a carga tributária nesses três cenários mostra o quanto o imposto pode variar conforme o negócio realmente performa ao longo do ano.
Como se preparar
Se a sua empresa já está se aproximando de algum desses limites, seja o sublimite de R$ 3,6 milhões, o teto do Simples ou a marca de R$ 5 milhões no Lucro Presumido, o ideal é simular o cenário com antecedência, e não apenas no fechamento do ano. Essa antecipação evita surpresas fiscais e ainda permite negociar contratos e preços já considerando uma eventual mudança de regime no horizonte. Para negócios em crescimento acelerado, vale projetar entre 18 e 24 meses à frente, já que a escolha de regime costuma valer para todo o ano-calendário, e pensar apenas nos próximos 12
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