Tokenização: por que o Brasil avança e o que isso muda para empresas
12/08/2026 15:294 min de leituraAtualizado há 21 dias
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Trabalhista e Folha, atualizado a cada mudança de norma.
O mercado de ativos digitais está mudando de fase. Depois de anos de testes pontuais, bancos, gestoras e reguladores começam a discutir como colocar a tokenização de ativos, ou seja, transformar bens e investimentos em registros digitais na blockchain, em escala institucional, movimentando volumes muito maiores do que hoje. E o Brasil, segundo especialistas ouvidos no Financial Infrastructure Forum Latam, no Rio de Janeiro, aparece como um dos países mais adiantados nessa corrida.
Para quem administra uma empresa, isso pode parecer distante do dia a dia, mas não é. A tokenização promete tornar mais simples e barato negociar recebíveis, títulos, fundos e outros ativos financeiros que hoje dependem de processos burocráticos e caros. Se o Brasil consolidar essa vantagem, empresas brasileiras podem ter acesso mais rápido a crédito, investimento e novas formas de captação nos próximos anos.
Por que o Brasil se destaca
Segundo Bruno Batavia, sócio da Valor Capital, o debate sobre blockchain já não é mais sobre "a tecnologia funciona ou não", mas sobre como implementá-la e distribuir ativos digitais em larga escala, principalmente para investidores institucionais. O Brasil, na visão dele, esteve entre os pioneiros ao conectar grandes instituições financeiras a essas novas infraestruturas, muito por causa da abertura dos reguladores brasileiros para testar modelos novos.
O Drex, projeto de infraestrutura digital do Banco Central ainda em fase de teste, é citado como peça central desse avanço. Mesmo tendo passado por ajustes de rota ao longo do caminho, ele segue relevante para o setor. Thiago Mello, Head de Produto Crypto do Itaú, contou que o banco já trabalha com ativos digitais há cerca de cinco ou seis anos, mas que o ritmo acelerou justamente quando as discussões sobre o Real Digital, que depois virou o Drex, ganharam força.
Outro ponto de destaque é a comunicação entre os órgãos reguladores brasileiros. Enquanto em mercados como o dos Estados Unidos há sobreposição de competências e disputas sobre quem deve fiscalizar o quê, o Brasil vem tentando construir um modelo mais coordenado. João Accioly, diretor da CVM, afirmou que a comissão tem procurado alinhar suas diretrizes ao trabalho já conduzido pelo Banco Central, o que tem sido bem recebido pelo mercado.
O que isso significa na prática para o seu negócio
Um dos desafios apontados pelos especialistas é fazer com que toda a complexidade tecnológica por trás dos ativos digitais fique invisível para quem usa. Na visão de Mello, a experiência final precisa ser simples, barata e segura, sem que o cliente precise entender blockchain para se beneficiar dela. Isso é importante para empresários: a promessa é de que, no futuro, operações como antecipação de recebíveis ou aplicação em fundos tokenizados sejam tão fáceis quanto usar um aplicativo bancário comum.
Accioly também defendeu que a regulação deve estabelecer limites e proteções sem travar a criação de novos modelos de negócio pelos próprios participantes do mercado. Ele criticou o formato tradicional de sandbox regulatório, mecanismo que permite testar produtos sob regras temporariamente flexibilizadas, argumentando que isolar uma empresa das condições normais de mercado pode retirar justamente a pressão competitiva que estimula a inovação. Para ele, um projeto que fracassa em ambiente artificial pode ser descartado erroneamente, quando poderia funcionar em condições reais de concorrência.
Já Matt Blumberg, da Ondo Finance, chamou atenção para a importância da autocustódia, ou seja, a possibilidade de o próprio investidor guardar diretamente seus ativos digitais, sem depender totalmente de intermediários. Isso ganha peso especialmente em países onde a confiança nas instituições financeiras tradicionais é menor. Claudio Tessone, da Universidade de Zurique, reforçou que a transparência é uma das principais vantagens da blockchain, já que permite acompanhar transações registradas na rede com mais detalhe, embora tenha alertado que redes institucionais mais fechadas podem reduzir essa visibilidade e dificultar o acompanhamento por investidores e reguladores.
Para o empresário, o recado prático é observar esse movimento de perto, ainda que ele esteja em construção. À medida que o Drex avança e a regulação da CVM e do Banco Central se alinha, produtos financeiros tokenizados devem se tornar mais acessíveis para empresas de todos os portes, seja como forma de investir excedentes de caixa, seja como alternativa para captar recursos. Ficar de olho nas próximas etapas dessa regulação pode ajudar a antecipar oportunidades de crédito e investimento mais baratas no médio prazo.
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