Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
O mercado brasileiro teve um dia de sinais contraditórios nesta quinta-feira. O Ibovespa fechou em queda de 1,23%, aos 175.546,36 pontos, refletindo a cautela dos investidores após a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. Ao mesmo tempo, o dólar recuou para R$ 5,1055 e o petróleo Brent disparou 3,83%, puxado pelo agravamento das tensões no Oriente Médio. Para quem administra uma empresa, esse conjunto de movimentos merece atenção: ele mistura sinais de juros ainda altos por mais tempo, câmbio mais favorável no curto prazo e risco de custos de energia subindo lá fora.
O que muda para as empresas
A principal notícia para o empresário é que o Banco Central não deu garantias de que vai continuar cortando juros. No comunicado da decisão, a autoridade monetária falou em "significativo aumento da incerteza" e disse que vai manter a política de juros restritiva até ter certeza de que a inflação está sob controle. Na prática, isso significa que o crédito para capital de giro, financiamento de máquinas ou expansão de operação deve continuar caro por mais tempo do que muitos esperavam. Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, resumiu o clima ao afirmar que o tom duro do Copom sinaliza que os juros no Brasil devem permanecer elevados por mais tempo.
Do lado cambial, a notícia é mais positiva para quem importa insumos ou paga contratos em dólar: a moeda americana caiu para R$ 5,1055, acumulando queda de quase 7% no ano. Chama atenção que essa queda aconteceu mesmo com o dólar se valorizando lá fora e mesmo depois do corte da Selic, que teoricamente reduziria o apelo do real para investidores estrangeiros. Segundo Jefferson Rugik, diretor da Correparti Corretora, o que sustentou o real nesta quinta foi o fluxo de exportadores vendendo dólares no mercado interno, mais forte que os movimentos externos.
O risco que vem do petróleo
O ponto que exige mais atenção de curto prazo é a disparada do petróleo. O Brent subiu para US$ 82,49 o barril e o WTI, referência americana, foi para US$ 77,29, movimento direto de tensões no Irã. Segundo a agência iraniana Fars, uma comissão do parlamento do país avalia proibir a passagem de embarcações dos Estados Unidos, Israel e países considerados hostis pelo Estreito de Ormuz, rota por onde passava cerca de um quinto do abastecimento mundial de petróleo e gás antes do conflito atual. Há ainda risco de retaliação do Irã contra infraestrutura energética na região do Golfo Pérsico, além de ataques reportados por grupos houthis do Iêmen contra posições sauditas.
Para o seu negócio, isso é relevante porque petróleo mais caro tende a pressionar combustíveis, fretes, embalagens e uma cadeia inteira de custos logísticos, especialmente se a tensão se prolongar. O especialista Dennis Kissler, da BOK Financial, avaliou que os preços devem continuar subindo enquanto não houver avanço nas negociações entre Estados Unidos e Irã. Irã e Omã chegaram a apresentar uma proposta para encerrar o conflito, mas até o momento não houve resposta pública do governo americano, o que mantém a incerteza no radar de quem depende de combustível e transporte para operar.
O que os balanços das empresas mostram
A temporada de resultados do segundo trimestre também influenciou o pregão e trouxe pistas sobre o momento de setores importantes da economia. O Bradesco divulgou lucro de R$ 7,05 bilhões, alta de 16,2% em relação ao ano anterior, mas mesmo assim a ação caiu quase 2%, porque o banco sinalizou desaceleração do crédito para o segundo semestre. Já a Smart Fit, do setor de academias, foi o destaque negativo do dia, com queda de 7,82%, mesmo tendo apresentado lucro de R$ 204 milhões e crescimento de receita de 22%: os números vieram abaixo do que o mercado esperava. Do outro lado, a Petrobras subiu com o petróleo mais caro, e a Braskem avançou depois de ter atingido a menor cotação desde 2010 poucos dias antes.
| Indicador | Resultado do dia |
|---|---|
| Ibovespa | -1,23%, a 175.546,36 pontos |
| Selic | Cortada para 14% ao ano |
| Dólar | R$ 5,1055 (-0,44%) |
| Petróleo Brent | US$ 82,49 (+3,83%) |
Esse cenário de balanços mistos reforça um ponto prático: mesmo empresas com lucro em alta podem ver suas ações penalizadas se o mercado enxergar sinais de desaceleração à frente. Isso vale como lição também para negócios que buscam capital ou avaliam parcerias com companhias listadas, o desempenho passado não garante confiança automática dos investidores se as perspectivas futuras parecerem mais fracas.
Como se preparar
Diante desse quadro, vale rever contratos e projeções considerando juros elevados por mais tempo, especialmente se sua empresa depende de financiamento bancário. Aproveitar o dólar mais baixo pode ser uma janela interessante para quem tem compromissos em moeda estrangeira ou pretende importar insumos, mas essa vantagem cambial pode ser parcialmente anulada pelo custo mais alto do petróleo caso a tensão no Oriente Médio se intensifique. Fique atento também aos próximos números de inflação e às sinalizações do Banco Central sobre a reunião de setembro, além do noticiário internacional sobre o Irã, já que qualquer escalada pode impactar rapidamente combustíveis e frete, dois itens que pesam direto no custo operacional de praticamente qualquer negócio.
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