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Robôs no lugar de humanos: o que a greve na Coreia ensina sobre automação

18/07/2026 13:284 min de leituraAtualizado há 44 dias

Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Trabalhista e Folha, atualizado a cada mudança de norma.

Um episódio na Coreia do Sul pode parecer distante da sua realidade, mas carrega um recado direto para qualquer empresário que emprega gente e pensa em automatizar processos. Cerca de 35 mil trabalhadores das fábricas da Hyundai Motor entraram em greve e, entre as pautas de sempre (salário, participação nos lucros), colocaram uma reivindicação nova: nenhum robô humanoide pode ser instalado nas linhas de produção sem acordo prévio com o sindicato. É, ao que se sabe, a primeira greve da história motivada diretamente pelo avanço de robôs humanoides no ambiente de trabalho.

O pano de fundo é concreto. Em janeiro, a Boston Dynamics anunciou que toda a produção do primeiro ano do robô Atlas, dezenas de milhares de unidades, seria destinada à Hyundai. Em maio, a montadora confirmou planos de colocar mais de 25 mil robôs em operação em suas fábricas e da Kia, começando pelos Estados Unidos. Para as unidades coreanas ainda não há data definida, e é justamente por isso que o sindicato decidiu agir agora: negociar antes que os robôs cheguem é bem mais fácil do que negociar depois, quando a máquina já estiver ocupando o posto e, ao contrário de um trabalhador, jamais vai cruzar os braços.

O que muda

O centro da disputa é econômico. O Atlas, hoje, custa entre US$ 130 mil e US$ 140 mil por unidade, mas a Hyundai projeta reduzir esse valor para cerca de US$ 30 mil assim que a produção acumulada ultrapassar 50 mil unidades. A empresa já investiu US$ 26 bilhões em operações nos Estados Unidos, incluindo fábrica própria de robótica, e pretende produzir 30 mil robôs por ano até 2028. Na prática, isso significa que um robô altamente capaz, que trabalha em três turnos, não adoece, não pede aumento e não se aposenta, está cada vez mais barato e mais competitivo diante do custo de manter um trabalhador humano.

ItemSituação atualProjeção futura
Custo por unidade do AtlasUS$ 130 mil a US$ 140 milCerca de US$ 30 mil (após 50 mil unidades produzidas)
Robôs planejados por anoEm ramp-up30 mil por ano até 2028
Investimento nos EUAUS$ 26 bilhõesFábrica de robótica e unidade de atuadores

Quem é afetado

Embora o caso seja da Hyundai, o movimento não passa despercebido por concorrentes como Tesla, BMW, Mercedes-Benz, Toyota, BYD e Chery, todas investindo pesado em automação com robôs humanoides e inteligência artificial. A GM, por exemplo, já avalia fornecedores pelo grau de automação e recentemente incluiu 50 robôs colaborativos em uma fábrica onde havia cortado mais de mil vagas pouco antes. Ou seja, sindicatos, empresas e órgãos trabalhistas de vários países estão de olho no desfecho coreano, porque ele pode servir de modelo, positivo ou negativo, para negociações futuras em qualquer setor que dependa de linha de produção ou de tarefas repetitivas.

Para o empresário brasileiro, o ponto de atenção não é a chegada iminente de robôs humanoides por aqui (isso ainda está longe da realidade da maioria dos negócios), mas sim o sinal claro de que a discussão sobre automação e emprego deixou de ser teórica. Se sua empresa terceiriza produção, opera linha de montagem, depende de processos repetitivos ou já usa algum tipo de automação, vale acompanhar como esse debate evolui lá fora, porque ele tende a chegar, mais cedo ou mais tarde, às mesas de negociação coletiva no Brasil também.

Como se preparar

O caminho mais seguro não é ignorar o tema nem tratá-lo como ficção científica. Se você está avaliando investir em automação, robótica ou inteligência artificial em processos que hoje dependem de mão de obra, antecipe a conversa com sua equipe e, se houver representação sindical, também com ela. Definir critérios claros, como em quais funções a automação vai substituir tarefas, em quais vai apenas apoiar o trabalho humano e que tipo de requalificação será oferecida aos afetados, reduz o risco de conflitos e de paralisações como a que atinge a Hyundai agora.

Vale lembrar que a discussão não é só sobre robôs físicos. Softwares de automação, chatbots e ferramentas de inteligência artificial que substituem tarefas administrativas, de atendimento ou de análise já provocam o mesmo tipo de tensão em escritórios e empresas de serviço, inclusive no Brasil. Ter uma política interna transparente sobre automação, comunicada com antecedência às equipes, é uma forma prática de evitar desgastes e proteger o clima organizacional, além de ajudar na conformidade com eventuais exigências trabalhistas futuras.

O episódio coreano marca o fim de uma fase em que se discutia, de forma abstrata, se os robôs humanoides tirariam empregos. Agora a pergunta que interessa a qualquer gestor é outra: como equilibrar ganho de produtividade com a manutenção de uma relação saudável com quem trabalha na sua empresa. Quem se antecipar a essa conversa, em vez de esperar o conflito estourar, sai na frente tanto na eficiência operacional quanto na gestão de pessoas.

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