Por que um bilionário investe em criar 30 mil macacos para pesquisa nos EUA
02/11/2026 05:004 min de leituraAtualizado há 4 horas
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Fiscal e Obrigações, atualizado a cada mudança de norma.
Você já deve ter ouvido falar da escassez de insumos que afeta diversas indústrias pelo mundo, mas talvez não soubesse que isso também vale para macacos usados em pesquisas médicas. Um caso recente mostra como esse problema virou oportunidade de negócio: o bilionário Joe Lonsdale, cofundador da empresa de defesa Palantir, usou sua gestora de investimentos para apoiar uma startup que pretende criar 30 mil primatas destinados a testes científicos nos Estados Unidos. O caso expõe um gargalo silencioso que pode interessar a qualquer empresário que acompanha os bastidores da cadeia de desenvolvimento de remédios e vacinas.
O que está acontecendo
A gestora 8VC, criada por Lonsdale em 2015, investiu em uma empresa chamada Safer Human Medicine (SHM), fundada em 2023 por Jim Harkness, um executivo com longa experiência no setor de fornecimento de animais para laboratórios. A SHM já captou cerca de R$ 150,6 milhões, dos quais R$ 107,6 milhões vieram da própria 8VC. O objetivo da empresa é criar uma grande colônia de macacos em território americano para suprir pesquisas médicas, algo que hoje depende fortemente de importação.
O histórico do fundador chama atenção: antes de criar a SHM, Harkness foi diretor de operações da Envigo, empresa que fechou uma unidade de criação de cães beagles após ser denunciada pelo governo americano por maus-tratos aos animais. A controladora da Envigo acabou pagando a maior multa já registrada nos Estados Unidos por violação da lei de bem-estar animal, no valor de R$ 188,3 milhões. Harkness não foi acusado no processo e deixou a empresa antes do desfecho.
Por que isso importa para quem está fora do setor
Pode parecer um assunto distante da sua empresa, mas o caso ilustra um movimento mais amplo: a dependência de cadeias de suprimento internacionais e os riscos que isso traz para setores estratégicos, como o farmacêutico. Desde que a China, principal fornecedora mundial de macacos para pesquisa, proibiu a exportação desses animais em 2020, o preço de cada primata saltou de cerca de R$ 16,1 mil para R$ 107,6 mil. Isso encareceu diretamente o custo de desenvolver novos medicamentos e tratamentos, um reflexo que, no fim da cadeia, pode chegar até o preço de remédios e terapias disponíveis no mercado.
Essa lógica de escassez e dependência de fornecedores estrangeiros é familiar para quem lida com importação de insumos, matérias-primas ou componentes eletrônicos no Brasil. O caso americano mostra como um gargalo em um elo da cadeia, nesse caso, o fornecimento de animais de laboratório, pode travar investimentos bilionários em pesquisa e desenvolvimento, inclusive de tratamentos para doenças graves.
O projeto da SHM também enfrenta resistência local nos Estados Unidos. A empresa tentou construir uma grande instalação na cidade de Bainbridge, na Geórgia, com incentivos fiscais e promessa de geração de empregos, mas o acordo foi cancelado após protesto dos moradores, apoiados por uma organização de defesa animal. A SHM processou as autoridades locais e, enquanto o caso corre na Justiça, abriu uma unidade alternativa na Flórida, que já está em operação.
O pano de fundo regulatório
Vale notar que, em 2023, o órgão regulador de medicamentos dos Estados Unidos passou a permitir que farmacêuticas usem alternativas tecnológicas aos testes em animais, como simulações computacionais e dispositivos que reproduzem o funcionamento de órgãos humanos. Ainda assim, especialistas ouvidos pela reportagem original afirmam que, para medicamentos mais complexos, testes em sistemas biológicos completos, como os de primatas, continuam sendo considerados insubstituíveis por parte da indústria.
Para você que empreende ou gerencia negócios ligados direta ou indiretamente à cadeia de saúde, biotecnologia ou pesquisa, o episódio é um lembrete de que gargalos de fornecimento em setores aparentemente distantes podem gerar efeitos em cascata, afetando prazos, custos e até a viabilidade de projetos de inovação. Fique atento a notícias sobre restrições de insumos estratégicos: elas costumam antecipar mudanças de preço e de estratégia em cadeias produtivas inteiras.
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