Perfume sob medida com IA: o que a Natura ensina sobre hiperpersonalização
06/08/2026 05:024 min de leituraAtualizado há 28 dias
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Trabalhista e Folha, atualizado a cada mudança de norma.
A Natura acaba de apresentar um projeto-piloto que promete mudar a forma como pensamos sobre produtos de beleza: uma máquina capaz de criar fragrâncias exclusivas para cada cliente, na hora, combinando até três opções a partir de 54 acordes olfativos. O consumidor participa de toda a experiência, desde a conversa com uma inteligência artificial até o momento em que acompanha o envase do próprio perfume. Para quem administra negócios em qualquer elo da cadeia de consumo, esse movimento é um sinal claro de para onde o mercado está indo.
Segundo Tatiana Ponce, CMO e Head de Inovação da Natura e Avon, o Brasil já é o terceiro maior mercado global de beleza e cuidados pessoais, com movimentação superior a R$ 240 bilhões. Ela destaca que o brasileiro tem uma ligação especial com fragrâncias, o que torna essa categoria estratégica para a empresa. Uma pesquisa da Dailymotion Advertising, divulgada no ano passado, reforça esse cenário: 7 em cada 10 brasileiros já veem valor no uso de inteligência artificial durante a jornada de compra de produtos de beleza.
O que muda para o consumidor
A experiência criada pela Natura começa com uma interação em linguagem natural. O cliente responde perguntas sobre memórias, sensações e preferências pessoais, e a tecnologia usa essas respostas para montar a combinação de fragrância mais adequada ao perfil dessa pessoa. Segundo Ponce, há uma transição clara no comportamento do consumidor: a saída do modelo tradicional de prateleira, pensado para milhões de pessoas, em direção a produtos criados especificamente para cada indivíduo.
Essa lógica não se limita a perfumes. A Natura já planeja permitir que os clientes criem suas próprias bases de maquiagem, com dezenas de tonalidades possíveis para aproximar o produto o máximo possível do tom de pele de quem vai usá-lo. Ainda não há data definida para esse lançamento, mas a experiência com fragrâncias personalizadas já tem estreia marcada: o público vai conhecer a tecnologia no FILE Festival, evento de tecnologia em São Paulo, em outubro.
Quem é afetado e por quê
O caso da Natura interessa a qualquer gestor que atue com varejo, indústria de consumo ou serviços que dependam de personalização. A executiva da empresa é direta ao afirmar que a demanda por produtos que unam tecnologia, individualidade e sustentabilidade nunca foi tão alta. Isso significa que negócios que ainda operam no modelo de produção em massa, sem oferecer nenhum grau de customização, podem perder espaço para concorrentes que investirem em soluções mais próximas das preferências individuais de cada cliente.
Vale destacar que, segundo Ponce, essa iniciativa não é um projeto pontual, mas parte de uma estratégia de longo prazo da Natura voltada à hiperpersonalização, ciência de dados e eficácia cosmética. Ou seja, empresários que acompanham o setor devem entender esse movimento como uma tendência estrutural, e não como uma ação isolada de marketing.
O caminho regulatório: cinco anos de negociação
Um dos pontos mais relevantes para quem pensa em inovar dentro de setores regulados é o processo que a Natura precisou percorrer até chegar a esse piloto. Fabricar perfume em um espaço público, na frente do consumidor, exigiu a criação de novos parâmetros sanitários de controle de qualidade e rastreabilidade. Para isso, a empresa liderou um diálogo de cerca de cinco anos com a Anvisa, com apoio da ABIHPEC (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos).
Esse esforço resultou na criação de um Sandbox Regulatório, um ambiente experimental seguro que permite testar inovações sob supervisão da agência. Tanto os perfumes quanto as bases de maquiagem personalizadas fazem parte dessa fase experimental, autorizada pela Anvisa por um período inicial de um ano. Segundo Ponce, o principal ganho dessa etapa é o aprendizado: validar a aceitação do consumidor, ajustar os algoritmos de recomendação e preparar o caminho para um modelo de negócio sob demanda, feito diretamente no ponto de venda do varejo brasileiro.
Para o seu negócio, o recado prático é este: a personalização apoiada em inteligência artificial deixou de ser promessa distante e já ganha testes reais no mercado brasileiro, com respaldo regulatório. Se você atua em setores onde a experiência do cliente pode ser customizada, vale acompanhar de perto esse tipo de iniciativa e avaliar, desde já, como aplicar conceitos semelhantes na sua operação, seja em produtos, atendimento ou serviços.
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