Empresas em recuperação judicial em 2026: quem está na lista e por quê
28/10/2026 05:004 min de leituraAtualizado há 1 hora
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de E-commerce e Marketplace, atualizado a cada mudança de norma.
Se você é empresário, já deve ter notado: renegociar dívida está cada vez mais comum, inclusive entre marcas grandes e conhecidas. Em 2025, o Brasil registrou 977 processos de recuperação judicial, envolvendo 2.466 CNPJs, o maior número da série histórica medida pela Serasa Experian. Em 2026, o dado mais recente, referente a maio, mostra 65 processos e 237 CNPJs envolvidos. Entre os nomes que estão tentando reorganizar as contas estão Raízen, Braskem, Casas Bahia, Oncoclínicas, GPA e outras empresas de peso em seus setores.
O cenário de juros altos e crédito caro ajuda a explicar parte do problema: fica mais difícil para as empresas financiarem estoque, bancar operações e sustentar planos de crescimento. Mas, segundo especialistas ouvidos sobre o tema, isso não é a história toda. Para Leandro Guissoni, professor da FGV, o peso maior costuma estar no erro estratégico, não apenas no ambiente econômico. Ele lembra que há empresas que prosperam no mesmo contexto de juros elevados, o que indica que a gestão interna faz diferença.
O que realmente leva uma empresa à recuperação judicial
Altair Heitor, contador e CFO especializado em gestão, resume bem o raciocínio: quando o caixa não comporta mais os compromissos nas condições originalmente contratadas, isso é o resultado de uma crise, não necessariamente a origem dela. Na prática, isso significa que uma empresa pode chegar a esse ponto por ter se endividado para crescer rápido demais, por ter perdido margem aos poucos ou por ter demorado para adaptar a operação a um mercado que mudou. O crédito caro só piora um problema que já existia.
Bruno Boris, advogado especializado em reestruturação, reforça esse olhar: os juros altos são um fator comum a empresas que dependem de crédito para girar o negócio, mas cada caso tem características próprias, como o nível de endividamento e a organização interna. Ou seja, antes de culpar a conjuntura econômica, vale olhar com cuidado para dentro da própria operação.
Quem está na lista e o que explica cada caso
A Raízen negocia cerca de R$ 61,4 bilhões em dívidas financeiras, com plano já homologado pela Justiça que prevê converter parte dos créditos em ações. A Braskem trata de uma dívida de US$ 10,9 bilhões, com prazo até sexta-feira (30) para fechar acordo com credores, envolvendo aporte de acionistas e conversão de dívida em participação societária. Nos dois casos, especialistas apontam que o porte e a relevância estratégica das empresas tornam a negociação mais ágil, já que não há interesse do mercado em vê-las quebrar.
Já a Casas Bahia, que pediu recuperação judicial em agosto com passivo de R$ 17,3 bilhões, enfrenta um problema de descompasso no caixa: o produto sai da loja antes de o dinheiro entrar de fato, enquanto fornecedores e despesas continuam cobrando no prazo. O crescimento do e-commerce ajuda, mas ainda não é suficiente para resolver essa equação. A Oncoclínicas negocia R$ 5,7 bilhões em dívidas sem garantia, com proposta que ainda depende da adesão de mais da metade dos credores em cada categoria. O GPA, dono do Pão de Açúcar, já tem apoio de 57,49% dos credores para um plano que alonga prazos e reduz pagamentos futuros, homologado em outubro para cerca de R$ 4,6 bilhões em créditos sem garantia.
Outros casos da lista mostram problemas variados: o Grupo Euro17, do setor de crédito e securitização, tem R$ 1,72 bilhão em dívidas e mais de 5 mil credores, incluindo investidores pessoas físicas. A Ruiz Coffees, uma das maiores produtoras de café do país, atribui o pedido de R$ 775 milhões em dívidas a safras afetadas pelo clima e à falta de crédito para o agronegócio. O Grupo Toky, dono de Tok&Stok e Mobly, tenta reduzir custos de uma operação física ampla e tem R$ 1,1 bilhão em dívidas, com votação dos credores prevista para novembro. A Alliança Saúde, de diagnóstico por imagem e laboratórios, negocia R$ 1,1 bilhão e garante que o processo não afeta pacientes, funcionários ou operadoras de saúde.
O que isso significa para o seu negócio
Mesmo que sua empresa não tenha o porte dessas companhias, os sinais de alerta valem para negócios de qualquer tamanho. Falta de fluxo de caixa suficiente para cumprir obrigações de médio prazo é um sintoma que não deve ser ignorado, segundo Boris. Vale observar de perto a relação entre vendas e recebimento efetivo do dinheiro, o custo real do crédito usado para financiar operações, a rentabilidade considerando o risco de inadimplência e se investimentos recentes, como expansões ou aquisições, estão realmente gerando retorno compatível com o endividamento assumido.
O ponto comum entre os especialistas é claro: juros altos e crédito caro agravam fragilidades, mas não criam decisões ruins sozinhos. Antes de atribuir dificuldades financeiras apenas à economia, faça um diagnóstico honesto da própria operação: estrutura de custos, prazos de recebimento, nível de endividamento e se o crescimento buscado nos últimos anos realmente trouxe margem ou apenas volume. Esse exercício, por mais desconfortável que seja, é o que separa quem consegue se ajustar a tempo de quem acaba batendo à porta da Justiça para renegociar.
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