Pular para o conteúdo
VoltarTecnologia

Empresas de IA destroem livros raros para treinar robôs: entenda o motivo

19/08/2026 05:093 min de leituraAtualizado há 15 dias

Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.

Um processo judicial contra a Anthropic, empresa responsável pelo assistente de IA Claude, revelou uma prática pouco conhecida do setor de tecnologia: a compra em massa de livros físicos para serem digitalizados e depois destruídos. Documentos tornados públicos mostram que a empresa comprou milhões de exemplares, cortou as lombadas, escaneou as páginas em alta velocidade e triturou os originais, em uma operação interna batizada de "Projeto Panamá".

Embora o caso tenha vindo à tona a partir de best-sellers impressos antes de 2022, investigações recentes mostram que a prática vai além. Livros raros, antigos e fora de catálogo, muitas vezes exemplares únicos ou de difícil reposição, também estão sendo comprados em grandes quantidades e enviados para centros de digitalização controlados por gigantes da tecnologia.

Por que isso está acontecendo

A explicação é, ao mesmo tempo, jurídica e prática. Treinar modelos de inteligência artificial exige enormes volumes de texto de qualidade. Durante anos, empresas usaram conteúdo pirateado disponível na internet, as chamadas "bibliotecas de sombra", mas essa prática gerou processos milionários movidos por autores, editoras e veículos de imprensa.

Comprar o livro físico resolve esse problema. Ao adquirir legalmente um exemplar, a empresa passa a ter o direito de fazer o que quiser com aquela cópia específica, inclusive destruí-la depois de digitalizá-la. É uma brecha permitida pela lei de direitos autorais, que separa a propriedade do objeto físico do direito de autor sobre o conteúdo.

Há ainda um motivo técnico relevante para o seu negócio entender: a internet está cada vez mais cheia de textos gerados pela própria inteligência artificial, o que compromete a qualidade dos dados usados para treinar novos modelos. Livros publicados antes de 2022 oferecem texto escrito e revisado por humanos, com raciocínio estruturado e linguagem mais sofisticada, características difíceis de encontrar em conteúdo recente da web.

Fonte digital pirateada

  • Alto risco de processos por direitos autorais
  • Conteúdo já contaminado por textos gerados por IA
  • Prática legalmente questionável

Livro físico comprado

  • Uso amparado pela doutrina da primeira venda
  • Texto de autoria humana, sem interferência de IA
  • Prática considerada legal em processos já julgados

Uma prática legal, mas questionada

Processos judiciais já decidiram que converter um livro comprado legalmente em arquivo digital, para uso interno no treinamento de modelos, é uma prática aceita. É a chamada Doutrina da Primeira Venda, que garante ao comprador de um exemplar físico o direito de usá-lo, revendê-lo ou até destruí-lo.

Isso não significa que a prática esteja livre de críticas. Especialistas argumentam que as empresas estão usando a compra do objeto físico como uma forma de contornar a necessidade de remunerar autores e criadores, já que o conteúdo intelectual acaba sendo aproveitado sem qualquer pagamento adicional além do preço do livro usado.

Não há um número oficial de quantos livros já foram destruídos até agora. Documentos do próprio caso judicial indicam que a Anthropic planejava digitalizar entre 500 mil e 2 milhões de livros em um único contrato de seis meses com um fornecedor, com a meta interna declarada de "digitalizar destrutivamente todos os livros do mundo". Relatos de vendedores de livros usados nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Europa mencionam pedidos que variam de centenas a milhões de títulos por transação.

Para quem administra negócios ligados a livros, papel, editoração ou mesmo acervos e bibliotecas, o episódio serve de alerta sobre como a demanda por dados de treinamento de IA pode transformar mercados inteiros de forma silenciosa. Vale acompanhar esse tipo de movimento, especialmente se seu negócio lida com estoques de livros antigos, direitos autorais ou produção de conteúdo, pois as regras sobre uso de dados por inteligência artificial ainda estão em formação e podem afetar diretamente o valor e o destino desses ativos.

Aviso: conteúdo informativo, produzido a partir de fontes públicas e reescrito pela nossa editoria. Não substitui orientação contábil ou fiscal personalizada. Tem uma dúvida sobre o assunto? Pergunte no portal.