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Crédito rural mais caro: por que seguro e dados pesam mais agora

19/08/2026 05:004 min de leituraAtualizado há 15 dias

Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de BPO Financeiro, atualizado a cada mudança de norma.

Se você produz ou financia produção no agronegócio, prepare-se para uma mudança de regra não escrita: produzir bem deixou de ser garantia suficiente para conseguir crédito em boas condições. O setor vive um momento de inadimplência crescente e mais recuperações judiciais, e isso está fazendo bancos e investidores olharem com mais atenção para como cada operação está protegida, não só para o quanto o produtor colhe.

Os números ajudam a explicar essa mudança de comportamento. No primeiro trimestre de 2026, o agronegócio teve 474 pedidos de recuperação judicial, um salto de 21,9% em relação ao mesmo período de 2025. Ao mesmo tempo, o volume de crédito problemático na carteira rural cresceu de forma expressiva nos últimos anos, o que naturalmente deixa quem empresta dinheiro mais cauteloso e mais seletivo.

O que muda na prática

Até agora, a lógica era simples: quem produzia bem tinha acesso a crédito. Agora, essa conta ganhou mais variáveis. Bancos e investidores passam a considerar também o risco climático da região, a existência de seguro sobre a produção, a qualidade das garantias oferecidas e até a transparência das informações do produtor. Ou seja, dois produtores com a mesma capacidade produtiva podem ter acesso a condições diferentes de crédito, dependendo de como cada um administra e comprova seus riscos.

O Plano Safra 2026/27 trouxe volumes relevantes de recursos, incluindo R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 72,6 bilhões para o Pronamp. Mas especialistas do setor apontam que esse volume, por si só, já não é suficiente para atender à demanda do campo nas condições que o produtor precisa. Por isso, instrumentos como a Cédula de Produto Rural (CPR) ganham espaço: na safra 2025/2026, ela movimentou R$ 205,2 bilhões e já responde por 43% de todo o crédito de custeio agrícola, mostrando que o mercado de capitais está assumindo um papel cada vez maior no financiamento do campo.

Quem é afetado

Essa mudança afeta diretamente qualquer produtor rural que dependa de crédito para custeio, comercialização ou investimento, especialmente aqueles em regiões mais expostas a eventos climáticos. O Banco Central já trata o risco climático como parte da estabilidade financeira do país e reconhece que ele afeta a inadimplência do crédito rural, embora não seja possível medir exatamente quanto dessa inadimplência vem só do clima.

O seguro rural aparece como peça central dessa nova equação, mas ainda está longe de cobrir o tamanho do agronegócio brasileiro. Em 2025, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) beneficiou cerca de 42 mil produtores e cobriu 3,2 milhões de hectares, o equivalente a apenas 4,09% da área cultivada na safra 2024/2025. O próprio governo reconheceu que faltou dinheiro: do orçamento inicial de R$ 1,06 bilhão para o programa, cerca de R$ 428 milhões foram cortados, restando R$ 565 milhões. O setor defende que seriam necessários recursos da ordem de R$ 4 bilhões para atender à demanda real.

O seguro rural hoje: números que mostram o tamanho do gap
4,09%da área cultivada seguradade 78,2 milhões de hectares da safra 2024/2025.
R$ 565 milhõesdisponíveis no PSR em 2025após corte de R$ 428 milhões do orçamento inicial de R$ 1,06 bilhão.
R$ 4 bilhõesnecessidade defendida pelo setorvalor considerado adequado para ampliar a cobertura do seguro rural.

Vale destacar que ter seguro não é garantia automática de crédito mais barato. Segundo especialistas ouvidos sobre o tema, não há como afirmar hoje que um produtor segurado pagará menos juros, nem que uma propriedade mais exposta ao clima terá crédito necessariamente mais caro. O que existe é uma tendência: se o mercado financeiro passar a reconhecer economicamente essa proteção, o seguro deixa de ser apenas uma despesa para proteger a safra e passa a fazer parte da própria estrutura de financiamento do negócio.

Como se preparar

Diante desse cenário, produtores e empresas do agronegócio ganham motivo prático para revisar sua relação com seguro, dados e governança. Isso inclui avaliar a contratação de seguro rural, inclusive modelos como o seguro paramétrico, que usa gatilhos climáticos para agilizar indenizações e reduzir risco de fraude, organizar dados de produção e de riscos climáticos da propriedade, e investir em transparência e governança nas informações apresentadas a bancos e investidores. Ainda que isso tenha custo, especialistas apontam que esse tipo de organização pode facilitar o acesso a crédito e, no médio prazo, ajudar a reduzir o custo de financiamento da atividade.

No fim das contas, o recado para quem depende de crédito rural é claro: o dinheiro ainda existe, mas o custo de convencer quem empresta de que ele será devolvido está mudando. Produção continua sendo a base, mas proteção, dados e transparência tendem a pesar cada vez mais nessa conta, e quem se organizar antes pode sair na frente na hora de negociar condições melhores.

Aviso: conteúdo informativo, produzido a partir de fontes públicas e reescrito pela nossa editoria. Não substitui orientação contábil ou fiscal personalizada. Tem uma dúvida sobre o assunto? Pergunte no portal.