Crédito caro e inadimplência recorde: como isso afeta sua pequena empresa
25/08/2026 15:004 min de leituraAtualizado há 8 dias
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de BPO Financeiro, atualizado a cada mudança de norma.
Conseguir crédito no banco está mais difícil para quem tem uma pequena empresa, e os números mostram por quê. Em junho de 2026, o Brasil registrou 9,1 milhões de empresas inadimplentes, o maior número da série histórica da Serasa Experian, somando R$ 232,9 bilhões em dívidas negativadas. Desse total, 8,7 milhões eram micro e pequenas empresas, ou seja, 95% de todos os CNPJs inadimplentes. Se você comanda um negócio desse porte, esse cenário provavelmente já apareceu na forma de exigências maiores do banco, juros mais altos ou limite de crédito menor do que o esperado.
O problema foi tema de debate no Febraban Tech, em São Paulo, onde Walter Pimenta, vice-presidente executivo de pagamentos B2B da Mastercard para a América Latina, afirmou que o maior desafio para empreender no Brasil ainda é o acesso ao crédito. A lógica é direta: quanto mais risco o banco enxerga em emprestar para uma empresa, mais garantias e juros ele cobra. E hoje esse risco está mais alto porque a inadimplência entre pequenos negócios cresceu 17,7% em 12 meses, ritmo até superior ao das empresas em geral.
Por que o crédito ficou mais caro e mais escasso
Os dados do Banco Central ajudam a entender o tamanho do aperto. Em maio, a taxa média de juros do crédito livre para empresas chegou a 25,2% ao ano, um ponto percentual a mais do que 12 meses antes. No mesmo período, a inadimplência das empresas nessa modalidade de crédito subiu para 4,1% da carteira. Mesmo com a Selic em trajetória de queda, ainda em 14% ao ano, o custo do dinheiro para empresas continua pesado. E a demanda por crédito não parou de crescer: alta de 9,2% em 12 meses, segundo a Serasa Experian, justamente porque o Brasil viveu um boom de aberturas de empresas, 5,1 milhões só em 2025, recorde histórico, com mais de 4,9 milhões sendo pequenos negócios.
Diante da dificuldade de conseguir uma linha de financiamento tradicional, muitas empresas passaram a usar o cartão corporativo como uma espécie de solução de emergência. Segundo Pimenta, o prazo de até 30 dias para pagar a fatura acaba funcionando, na prática, como capital de giro. Funciona para aliviar um aperto pontual de caixa, mas não substitui uma linha de crédito estruturada e pode sair caro se a fatura atrasar ou se a empresa precisar de valores maiores para investir.
O problema começa antes de pedir o empréstimo
Nem toda a dificuldade está do lado do banco. Uma pesquisa do Sebrae mostrou que 61% dos donos de pequenos negócios que buscaram financiamento recorreram a empréstimos pessoais para injetar dinheiro na empresa. Misturar as finanças da pessoa física com as da pessoa jurídica pode até resolver uma emergência pontual, mas cria um problema maior lá na frente: fica mais difícil mostrar ao banco qual é a real rentabilidade do negócio e construir um histórico financeiro consistente em nome da empresa.
Quando as receitas, despesas e dívidas da empresa passam pela pessoa física do dono, o banco tem menos informações para avaliar o risco real daquele negócio. O resultado é um ciclo difícil de quebrar: menos dados disponíveis tendem a significar crédito negado, limite menor ou juros mais altos. Isso pesa ainda mais sobre microempreendedores individuais e empresas recém-abertas, que costumam ter poucos ativos para oferecer como garantia e pouco histórico para comprovar que pagam em dia.
Marcelo Tangioni, CEO da Mastercard Brasil, resume o problema como um paradoxo: o empresário usa produtos financeiros de pessoa física porque são mais fáceis de conseguir, mas, ao fazer isso, reduz justamente as informações que o banco precisa para conhecer o negócio e oferecer condições melhores. É um problema de mão dupla, o empreendedor precisa de crédito para crescer, mas nem sempre tem a estrutura financeira para provar que pode pagar, e o banco, sem enxergar esse risco com clareza, tende a ser mais conservador.
O que você pode fazer agora
A boa notícia é que parte da solução está ao alcance do próprio empresário, antes mesmo de bater à porta do banco. Separar as finanças pessoais das da empresa, mesmo em um negócio pequeno, é o primeiro passo para construir um histórico financeiro que realmente representa o desempenho do negócio. Digitalizar pagamentos e recebimentos também ajuda a criar esse rastro de dados, que pode ser decisivo para conseguir crédito como pessoa jurídica e não mais depender de linhas pessoais mais limitadas e, muitas vezes, mais caras no longo prazo.
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