Cartão de crédito do Mercado Pago: por que o BC está de olho nisso
01/09/2026 17:554 min de leituraAtualizado há 1 dia
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de BPO Financeiro, atualizado a cada mudança de norma.
O Mercado Pago, braço financeiro do Mercado Livre, decidiu manter o ritmo de expansão no mercado de cartões de crédito, mesmo com o Banco Central sinalizando preocupação com o endividamento das famílias brasileiras. A empresa emitiu 2,6 milhões de novos cartões no segundo trimestre deste ano, quase o dobro do que emitiu no mesmo período do ano anterior. Para você que é empresário ou lida com crédito no dia a dia do seu negócio, esse cenário importa porque sinaliza para onde está indo a política de concessão de crédito no país e o que pode mudar nas regras em breve.
O que está em jogo
O Banco Central tem monitorado de perto o crescimento acelerado da dívida das famílias, principalmente em duas frentes: os saldos de cartão de crédito e os empréstimos ao consumidor sem garantia (aquele crédito concedido sem imóvel, veículo ou outro bem como lastro). Esses são justamente os segmentos onde o Mercado Pago vem crescendo mais rápido. A preocupação do regulador não é isolada: em julho, a inadimplência no chamado segmento de recursos livres (linhas de crédito não direcionadas, como cartão e cheque especial) chegou a 6,4%, o maior nível desde o início da série histórica, em março de 2011.
Do lado do Mercado Pago, os números também mostram sinais de atenção. A inadimplência entre 15 e 90 dias ficou em 4,6% na carteira de cartões e em 7,0% considerando toda a carteira de empréstimos. Já os financiamentos com mais de 90 dias de atraso, quando o risco de perda fica mais concreto, subiram para 18,7%. Como reflexo disso, o Mercado Livre reportou que as provisões para cobrir inadimplência (o dinheiro que a empresa separa prevendo que parte dos clientes não vai pagar) cresceram quase 85% no segundo trimestre em comparação ao ano anterior, o que ajudou a pressionar o lucro líquido do grupo, mesmo com a receita batendo recorde.
A posição da empresa
Apesar desse quadro, o vice-presidente do Mercado Pago, Ignacio Estivariz, disse à Reuters que a empresa está confortável com a qualidade da sua carteira de crédito. Segundo ele, os modelos usados para decidir quem recebe crédito e quem não recebe são robustos e usam inteligência artificial, cruzando milhares de informações sobre cada cliente, incluindo dados do comportamento de compra na própria plataforma do Mercado Livre. Para Estivariz, isso dá segurança para continuar expandindo o negócio, mas sem descartar a possibilidade de frear quando for necessário: "a gente não tem problema em desacelerar no momento certo", afirmou, destacando que a velocidade de crescimento é ajustada conforme as métricas do portfólio.
O que pode vir por aí
O diretor de supervisão do Banco Central, Ailton de Aquino, adiantou que uma medida considerada relevante para conter o endividamento em linhas de crédito mais caras será anunciada em breve. Ainda não se sabe exatamente qual será o formato dessa medida, mas o alerta já é um sinal de que o regulador pode intervir de forma mais direta em produtos como cartão de crédito e empréstimo pessoal sem garantia, justamente os carros-chave da estratégia de crescimento de fintechs como o Mercado Pago. Estivariz afirmou que a empresa mantém diálogo constante com os reguladores e que vai se adequar a qualquer medida que for definida pelo Banco Central.
Para você que administra uma empresa, esse movimento merece atenção por dois motivos práticos. Primeiro, se o seu negócio usa ou pretende usar linhas de crédito para consumidores, como parcelamento no cartão ou crédito direto ao cliente, mudanças nas regras do Banco Central podem impactar custo, prazo e disponibilidade dessas linhas. Segundo, o cenário de endividamento recorde das famílias tende a afetar o poder de compra do consumidor final, o que pode se refletir em vendas, inadimplência de clientes e na forma como você avalia o risco de vender a prazo.
O mais prudente, neste momento, é acompanhar de perto qualquer anúncio do Banco Central sobre crédito de custo mais elevado e revisar, se for o caso, as condições que sua empresa oferece de parcelamento ou financiamento a clientes. Ficar atento a esse tipo de sinalização regulatória ajuda a evitar surpresas no fluxo de caixa e a ajustar a estratégia comercial antes que novas regras entrem em vigor.
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