Algodão brasileiro bate recorde de R$ 36,4 bilhões: o que isso significa
24/09/2026 05:004 min de leituraAtualizado há 47 minutos
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
O algodão brasileiro viveu um ano histórico. Em 2025, o Valor Bruto da Produção (VBP) da cultura chegou a R$ 36,36 bilhões, o maior número já registrado na série acompanhada pelo Ministério da Agricultura. Para 2026, o resultado preliminar, calculado até agosto, já soma R$ 35,14 bilhões, o segundo melhor da história. Os dados foram discutidos no 15º Congresso Brasileiro do Algodão, em Belo Horizonte, e mostram que o setor consolidou uma posição de destaque no agronegócio nacional, com efeitos diretos sobre produtores, indústria têxtil e toda a cadeia de fornecedores ligada ao algodão.
Por que o Brasil virou referência mundial
O salto não é recente, mas vem se acelerando. Em 1997, o algodão gerou apenas R$ 3,96 bilhões em valor de produção. A partir dos anos 2000, a expansão para o Cerrado, a mecanização, o avanço tecnológico e a integração com o cultivo de soja mudaram o padrão da atividade. Segundo Aurélio Pavinato, CEO da SLC Agrícola, a área plantada com algodão saiu de cerca de 1 milhão de hectares há duas décadas para pouco mais de 2 milhões atualmente, enquanto a produtividade média subiu de aproximadamente 1.200 para 2.000 quilos de pluma por hectare. Ou seja: o país não apenas plantou mais, como aprendeu a produzir muito mais em cada pedaço de terra.
Essa combinação de escala, produtividade e capacidade de plantar duas safras por ano é apontada como o principal trunfo competitivo do país. Segundo Pavinato, é isso que permite ao Brasil oferecer algodão ao mercado internacional durante os 12 meses do ano, algo raro entre os concorrentes. Para quem vende, isso significa presença constante nas negociações internacionais; para quem compra, significa previsibilidade de fornecimento, um diferencial cada vez mais valorizado.
Os números de exportação reforçam essa liderança. No ano passado, o Brasil embarcou 3,1 milhões de toneladas de algodão em pluma, o equivalente a 74,8% da safra 2025/26, com receita de US$ 5,2 bilhões. De acordo com André Pessôa, CEO da Agroconsult, o Brasil já superou os Estados Unidos em exportações por dois ciclos seguidos e, isoladamente, Mato Grosso já produz mais algodão que os norte-americanos, enquanto a Bahia superou a Austrália. Concorrentes tradicionais como Índia, Paquistão, Austrália, China e Estados Unidos enfrentam limitações próprias, seja por escassez de água, perda de área produtiva ou dependência de mecanismos de apoio governamental.
O verdadeiro concorrente não é outro país
Um dos pontos mais relevantes do debate é que a principal disputa do algodão não está entre países produtores, mas contra o poliéster, fibra sintética derivada do petróleo. Durante anos, o petróleo barato deu vantagem de custo ao poliéster. Agora, com a alta recente dos preços internacionais do petróleo, essa equação mudou e favoreceu o algodão. Além disso, conflitos geopolíticos recentes deslocaram parte da instabilidade de preços do algodão para o petróleo, o que fortalece o argumento de que a fibra natural funciona como uma proteção contra riscos para a indústria têxtil. Para empresários do setor têxtil e de confecção, esse movimento pode significar mudanças na relação de custo entre matérias-primas ao longo dos próximos meses.
O que esperar da próxima safra
Para a safra 2026/27, a projeção é de crescimento entre 7% e 8,5% na área plantada, chegando a cerca de 2,2 milhões de hectares, com Mato Grosso mantendo-se acima de 1,5 milhão de hectares e a Bahia superando 400 mil hectares. Mas essa expansão enfrenta obstáculos concretos: o acesso a crédito está mais restrito, e o clima é motivo de atenção, já que o El Niño pode afetar as chuvas, especialmente no Nordeste e na segunda safra do Centro-Oeste. Na Bahia, a expansão da irrigação, que já cobre quase 200 mil hectares, tem ajudado a reduzir esse risco.
No campo dos custos, a alta dos fertilizantes fosfatados impediu uma queda mais significativa das despesas de produção, mas a valorização recente do algodão compensou parte desse efeito. A expectativa é de rentabilidade adequada na próxima safra, ainda que distante dos melhores momentos históricos. Para Alexandre De Marco, CEO do Grupo BDM, o desafio deixou de estar apenas na lavoura: cresce a importância de controlar despesas administrativas, comerciais, financeiras e logísticas, já que o preço final de venda está fora do controle do produtor.
Para empresários e gestores ligados direta ou indiretamente à cadeia do algodão, seja na produção, na indústria têxtil ou em serviços de apoio ao agronegócio, o cenário reforça a necessidade de acompanhar de perto custos de insumos, condições de crédito e o comportamento dos preços do petróleo, já que esses fatores devem continuar influenciando a rentabilidade e as decisões de investimento nos próximos meses.
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