Fonte: Contábeis · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
Se você já cogitou (ou está passando por) uma recuperação judicial, um dado recente ajuda a colocar expectativas realistas na mesa: apenas 17,5% das empresas que recorreram a esse mecanismo desde 2013 conseguiram, de fato, concluir o processo. É o que aponta um levantamento da RGF Consultoria feito a pedido do Valor Econômico. O número pode parecer baixo, mas não significa necessariamente fracasso, e entender por que ele é assim ajuda você a planejar melhor caso precise recorrer à recuperação judicial ou negocie com empresas que estejam nessa situação.
O que os números realmente mostram
Do total de empresas analisadas, 17,5% encerraram a recuperação judicial com sucesso e 10,7% faliram ou fecharam as portas. A maior fatia, porém, ainda está no meio do processo, ou seja, nem concluiu nem foi para o fechamento. Isso acontece porque houve uma forte concentração de novos pedidos nos últimos anos: mais da metade de todas as empresas do levantamento entrou em recuperação judicial entre 2023 e 2025. Como o processo costuma levar anos para ser encerrado, é natural que boa parte desse grupo mais recente ainda esteja em andamento.
Na prática, isso quer dizer que o percentual de 17,5% não é uma taxa final de sucesso, mas uma fotografia do momento atual. Conforme os processos mais recentes avançarem, esse número tende a mudar, para cima ou para baixo. O caso da Light, distribuidora de energia do Rio de Janeiro, ilustra bem esse caminho: a empresa encerrou recentemente sua recuperação judicial e passou a integrar esse grupo que conseguiu concluir o processo, depois de negociar dívidas com credores e cumprir as condições estabelecidas no plano aprovado.
Por que o número de recuperações judiciais está crescendo
O levantamento também mostra um aumento expressivo na quantidade de empresas usando esse mecanismo. Entre o segundo trimestre de 2023 e o mesmo período de 2026, o número de companhias em recuperação judicial saltou 65,8%, passando de 3.823 para 6.341. Esse crescimento acontece em um cenário de juros altos, crédito mais caro e maior dificuldade para renegociar dívidas, fatores que pressionam o caixa das empresas e podem levar negócios já fragilizados a buscar proteção judicial.
Entre os setores, o agronegócio lidera o crescimento recente, com alta de 66% no número de empresas em recuperação judicial nos 12 meses encerrados no segundo trimestre de 2026, totalizando 1.265 companhias. Transporte e logística vêm em seguida, com alta de 24%, e o comércio aparece com crescimento de 22%. No caso do agronegócio, além dos juros altos e do crédito restrito, pesam fatores como oscilação de preços das commodities, custo elevado de insumos e problemas climáticos, uma combinação que tem apertado o caixa de muitas empresas do setor.
Quem mais usa esse mecanismo
Embora pequenas e médias empresas somem a maior quantidade de pedidos em números absolutos, a recuperação judicial é proporcionalmente mais usada por empresas grandes. A incidência varia de 0,07 pedido para cada mil microempresas até 14,4 a cada mil grandes empresas e 17,4 a cada mil empresas muito grandes. Essa diferença tem relação direta com o custo e a complexidade do processo, que costumam pesar mais no bolso de negócios menores e acabam afastando esse grupo do mecanismo, mesmo quando enfrenta dificuldades financeiras semelhantes.
Vale lembrar o que está em jogo quando uma empresa entra em recuperação judicial: o objetivo é reorganizar dívidas e manter as atividades funcionando, evitando a falência sempre que possível. Para isso, a empresa apresenta um plano de pagamento aos credores. Mas aprovar o plano não resolve a crise por conta própria, é preciso cumprir cada obrigação assumida e manter caixa suficiente para continuar operando durante todo o processo, que só é considerado encerrado depois de atendidas as exigências da lei e do plano.
Para você que administra uma empresa, o recado prático é duplo. Primeiro, se sua empresa está avaliando esse caminho, é importante entender que a recuperação judicial oferece tempo e instrumentos para reorganização, mas não garante sozinha a continuidade do negócio: capacidade de gerar caixa e renegociar dívidas de forma realista seguem sendo decisivos. Segundo, se você negocia com fornecedores, clientes ou parceiros que estão em recuperação judicial, os dados mostram que o processo pode se estender por anos sem que isso signifique, necessariamente, que a empresa vá quebrar. Acompanhar de perto o cumprimento do plano de pagamento é a melhor forma de avaliar o risco real dessas relações comerciais.
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