Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
Um herdeiro de 30 anos, discreto e sem exposição pública, passou a controlar um patrimônio de R$ 38,8 bilhões, R$ 9,5 bilhões maior do que no ano anterior. Max Van Hoegaerden Herrmann Telles, filho mais novo de Marcel Herrmann Telles, um dos fundadores da 3G Capital, subiu da 11ª para a 7ª posição no ranking de bilionários brasileiros da Forbes Brasil. O caso não envolveu nenhuma nova empresa criada ou negócio fechado por ele: o crescimento do patrimônio reflete a transferência gradual de participações que pertenciam ao pai, entre elas uma fatia na Anheuser-Busch InBev, dona de marcas como Budweiser, Stella Artois e a brasileira Ambev.
Para você que administra um negócio, mesmo que em escala bem diferente, essa história traz uma lição direta: a forma como um patrimônio é passado de uma geração para outra pode ser tão importante quanto a forma como ele foi construído. Marcel Telles, junto com Jorge Paulo Lemann e Carlos Alberto Sicupira, redigiu ainda em 2000 um acordo pensado justamente para organizar essa passagem de comando e de bens para os herdeiros, muito antes de ela de fato acontecer.
O que muda na prática
A movimentação que elevou Max no ranking não é uma novidade isolada. Desde 2017, quando Marcel doou participações na São Carlos Empreendimentos e Participações a Max e ao irmão mais velho, Christian, a família já vinha organizando a transição de bens entre gerações. Lemann e Sicupira fizeram movimentos parecidos com seus próprios familiares na mesma época. O que chama atenção agora é o tamanho do ativo transferido: uma fatia da maior cervejaria do mundo, ligada à trajetória mais longa de Marcel dentro do grupo, que foi o sócio que ficou mais tempo à frente da operação das cervejarias ao longo da história que passou pelo Banco Garantia, pela compra da Brahma e pela criação da Ambev.
Vale destacar que receber uma participação societária não é o mesmo que assumir um papel de comando. A própria 3G criou uma regra específica para os herdeiros dos fundadores: eles podem atuar como trainees em empresas do grupo por até um ano, sem passar pelo processo seletivo tradicional. Foi esse caminho que Max seguiu ao participar do programa de trainees da AB InBev, nos Estados Unidos, depois de estágios de verão no Credit Suisse e na Falconi Consultants. Essa passagem, no entanto, não garantiu automaticamente um cargo executivo: depois dela, ele foi trabalhar como analista financeiro na BTG Pactual Asset Management, em Londres e Nova York, e desde então tem mantido a vida profissional fora dos holofotes.
Max Telles
- Formação em artes, com foco em economia, nos EUA
- Passagem por bancos e consultoria, sem cargo executivo
- Perfil discreto, sem redes sociais ativas
- Mora em Nova York, longe da exposição pública
Christian Telles (irmão)
- Trajetória voltada a tecnologia e venture capital
- Sócio de firma de investimentos na Califórnia
- Presença mais ativa em redes sociais
- Passagem por startups, Ambev e 3G Capital
Por que isso importa para quem administra um negócio
O contraste entre os dois irmãos ilustra algo que qualquer empresário que pensa em sucessão familiar precisa considerar: não existe um único caminho certo para os herdeiros. Enquanto Christian optou por construir um currículo mais visível, ligado a startups e investimentos, Max escolheu manter distância da exposição pública, mesmo diante de um patrimônio bilionário. Essa diferença de postura não impediu que ambos recebessem participações relevantes da família, o que mostra que a distribuição de bens e a definição de papéis executivos podem, e talvez devam, ser tratadas como decisões separadas.
Outro ponto que merece atenção é o momento em que a sucessão ganhou mais visibilidade. As crises envolvendo Americanas e Light aumentaram a exposição pública de Marcel Telles nos últimos anos, o que levou investidores e gestores a acompanhar mais de perto a reorganização de seus ativos. Esse tipo de situação reforça um alerta válido para qualquer negócio familiar: processos sucessórios tendem a ganhar atenção externa justamente em momentos de crise ou instabilidade, o que torna ainda mais importante ter regras claras definidas com antecedência, e não sob pressão.
O que fica como lição prática
A trajetória de Max Telles mostra que herdar um patrimônio é diferente de herdar o legado que o produziu. A geração de Marcel, Lemann e Sicupira construiu sua reputação sobre disciplina de custos, metas agressivas e uma capacidade particular de comprar empresas e transformá-las em gigantes globais. Nada garante que a próxima geração vá repetir esse modelo, e o material disponível não indica que seja essa a intenção de Max. O que existe, de fato, é a decisão de cada herdeiro sobre o que fazer com o capital e a responsabilidade recebidos.
Se você conduz um negócio próprio, ainda que em outra escala, o caso serve como referência sobre a importância de planejar a sucessão com antecedência, definir regras claras para a entrada de herdeiros na operação e aceitar que cada sucessor pode ter um perfil e um nível de exposição diferentes. Documentar acordos de sucessão, como fez a família Telles ainda em 2000, e permitir que os herdeiros construam suas próprias trajetórias antes de assumir participações relevantes são práticas que podem evitar conflitos e proteger o patrimônio construído ao longo de gerações.
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