Pistache na Argentina: como funciona o investimento no "ouro verde"
30/09/2026 04:593 min de leituraAtualizado há 3 horas
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
Um modelo de negócio argentino está chamando atenção de investidores que buscam alternativas fora da bolsa e do mercado imobiliário tradicional: o investimento coletivo em pomares de pistache. A proposta, criada pela empresa AgroFides, permite que empresários, family offices e até pequenos investidores comprem participação em plantações administradas profissionalmente, sem precisar entender de agricultura nem operar a terra diretamente. Para quem pensa em diversificar patrimônio em ativos reais, o caso vale ser conhecido.
O que é esse modelo de investimento
A ideia nasceu do argentino Juan Ignacio Ponelli, que tinha carreira consolidada em tecnologia, incluindo passagem por países da África e a gestão global de uma empresa do setor. Ao decidir migrar para o agronegócio, ele não partiu de afeto pela terra, mas de uma análise fria de números: qual cultura ofereceria previsibilidade, valorização de longo prazo e proteção patrimonial. O pistache venceu essa análise por ser uma cultura perene, com pomares que podem produzir por mais de um século, e por contar com tecnologia que reduz bastante o risco da produção, como sistemas de irrigação por gotejamento e monitoramento constante do solo.
A empresa começou pequena, com 110 hectares plantados com capital próprio na província de San Juan, e só avançou para captar investidores externos depois de validar todo o processo técnico. O veículo criado para isso se chama "La Memita" e funciona como um fideicomisso: em vez de vender pedaços de terra separadamente, como num loteamento, todo o patrimônio (terra, água, árvores e infraestrutura) permanece integrado e pertence ao fundo como um todo. Quem investe compra uma cota equivalente a um hectare dessa estrutura maior.
Quanto custa e quando o dinheiro retorna
O valor mínimo para entrar é de US$ 30 mil (cerca de R$ 159,6 mil na cotação usada pela reportagem), com aportes adicionais anuais durante a fase de desenvolvimento, até a plantação começar a produzir comercialmente. Segundo o fundador, essa fase de maturação leva em torno de oito anos, momento em que os investidores passam a receber dividendos periódicos. A projeção de retorno divulgada é de até 20% ao ano em dólares, o que, segundo Ponelli, torna o investimento competitivo até com imóveis urbanos, mas com a vantagem de ser um ativo produtivo que, segundo ele, tende a não perder valor ao longo do tempo.
O interesse por esse mercado ganhou tração extra recentemente. Segundo Ponelli, 2025 foi um ano de "boom inesperado" para o pistache, impulsionado por tendências em redes sociais, como o caso do chocolate recheado que viralizou globalmente. Esse movimento acelerou uma demanda que já vinha crescendo de forma consistente havia anos, ampliando o uso do produto para além dos snacks tradicionais: hoje ele aparece em confeitaria, sorvetes, panificação, bebidas vegetais e até cosméticos.
Por que a Argentina entra nessa disputa
Embora o país ainda tenha participação pequena diante de gigantes como Estados Unidos, Irã e Turquia, províncias como San Juan, Mendoza, La Rioja, San Luis e La Pampa reúnem condições climáticas favorecidas, como alta radiação solar, grande variação de temperatura e baixa umidade, o que ajuda a prevenir doenças nas plantações. Outro ponto estratégico é o calendário: por estar no Hemisfério Sul, a Argentina produz em período de entressafra em relação aos grandes produtores do Hemisfério Norte, o que pode facilitar a entrada no mercado internacional.
Para o investidor que avalia esse tipo de aplicação, é importante ter em mente que se trata de um ativo de longo prazo, com capital comprometido por anos antes de gerar retorno financeiro, e que envolve exposição a outro país e outra moeda. O modelo também traz um componente de impacto socioambiental, com uso de energia solar, irrigação eficiente e geração de empregos formais em regiões áridas do interior argentino, fatores que podem interessar quem busca alinhar investimento a critérios de sustentabilidade, mas que não substituem a análise criteriosa de riscos, prazos e regras do fideicomisso antes de qualquer decisão.
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