Operação Termidor: o que a fraude no dendê do Pará ensina sobre risco fiscal
18/09/2026 06:343 min de leituraAtualizado há 56 minutos
Fonte: Receita Federal · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
A Receita Federal, em parceria com a Polícia Federal do Pará, deflagrou nesta quinta-feira (17/09/2026) a Operação Termidor, voltada a combater um suposto esquema criminoso instalado no setor de dendê paraense. Segundo as investigações, o grupo teria atuado em furto, receptação e comercialização ilegal do fruto do dendê, além de lavagem de dinheiro, com participação de servidores da área de segurança do estado. O caso interessa a qualquer empresário porque mostra, na prática, quais sinais levam o Fisco a investigar uma cadeia produtiva inteira.
O que motivou a operação
As apurações começaram a partir da chamada "guerra do dendê", conflito identificado em municípios paraenses como Concórdia do Pará, Tomé-Açu, Acará, Moju e Tailândia, região de monocultura intensiva e onde vivem comunidades indígenas e quilombolas. Nessas localidades, teria se formado uma estrutura armada dedicada a furtar, receptar e comercializar ilegalmente o dendê, gerando recursos que depois precisariam ser "lavados" para parecer lícitos.
A investigação aponta que grupos empresariais ligados a esse esquema movimentaram cerca de R$ 1 bilhão entre 2023 e 2026, misturando dinheiro de origem legal com recursos ilícitos dentro da cadeia econômica do dendê. Foi justamente essa movimentação bilionária, sem lastro documental suficiente, que chamou a atenção dos órgãos de fiscalização.
Os sinais fiscais que denunciaram o esquema
O trabalho da Receita Federal foi essencial para identificar irregularidades que, isoladamente, já são motivo de alerta em qualquer fiscalização: incompatibilidade entre a capacidade financeira declarada pelas empresas e a real, movimentações de valores muito acima do faturamento informado, pagamentos frequentes a fornecedores sem relação com o ramo do dendê e venda de mercadorias sem o devido registro de entrada no estoque. Também foram encontrados indícios clássicos de lavagem de capitais, como empresas abertas em nome de "laranjas" e bens mantidos formalmente no nome de terceiros.
Esses elementos formam o que a fiscalização chama de "incompatibilidade patrimonial e financeira", ou seja, quando o volume de dinheiro movimentado não bate com o que a empresa declara ganhar ou produzir. É exatamente esse tipo de descompasso que qualquer negócio, mesmo fora do contexto de crime organizado, deve evitar deixar acontecer em sua contabilidade, sob risco de cair no radar do Fisco.
Quem é afetado e quais foram as medidas
A operação cumpriu 9 mandados de prisão preventiva e 25 mandados de busca e apreensão no Pará e em São Paulo, todos expedidos pela 4ª Vara Federal Criminal da Seção Judiciária do Pará. Além da prisão dos envolvidos, a Justiça determinou o bloqueio de cerca de R$ 153 milhões em bens e valores e a suspensão, por tempo indeterminado, das atividades de 11 empresas investigadas. Ao todo, 13 auditores-fiscais e analistas-tributários da Receita Federal participaram das apurações, que agora seguem com a análise dos documentos e equipamentos apreendidos, cruzados com dados fiscais e bancários dos investigados.
Para empresários e gestores, o episódio reforça uma lição prática: manter a contabilidade organizada, com registro correto de estoques, notas fiscais compatíveis com a movimentação real e coerência entre faturamento declarado e recursos movimentados em conta, não é apenas obrigação legal, mas proteção contra qualquer suspeita de irregularidade. Empresas que atuam em cadeias produtivas sensíveis, como agroindústria e commodities, devem redobrar a atenção com fornecedores e parceiros comerciais, evitando relações com empresas sem histórico claro no setor.
Se a sua empresa atua em setores com forte fiscalização, como o agronegócio, vale revisar processos internos de controle de estoque, conciliação bancária e documentação de fornecedores. Contar com assessoria contábil qualificada ajuda a identificar, antes que se tornem um problema, justamente os tipos de inconsistência que levaram à Operação Termidor.
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