Juros ao consumidor batem 64% ao ano: veja o que isso muda no seu bolso
30/07/2026 14:324 min de leituraAtualizado há 34 dias
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de BPO Financeiro, atualizado a cada mudança de norma.
O crédito para pessoas físicas ficou mais caro e mais arriscado em junho. Segundo dados do Banco Central, a taxa média cobrada nas operações de crédito livre para famílias subiu para 64% ao ano, o maior patamar em mais de 12 meses. Ao mesmo tempo, a inadimplência do sistema financeiro permaneceu em 4,7%, repetindo o pior resultado da série histórica iniciada em 2011. Para você que empreende, esse cenário importa porque afeta diretamente o poder de compra dos seus clientes e o custo do dinheiro para o seu próprio negócio.
O aumento dos juros não veio de uma mudança no tipo de crédito contratado, mas do encarecimento direto das taxas, o chamado "efeito taxa". Na prática, os bancos estão cobrando mais caro pelas mesmas modalidades de empréstimo, com destaque para o crédito pessoal não consignado, que teve alta de sete pontos percentuais nas taxas. Isso é um sinal de que as instituições financeiras estão precificando um risco maior nas operações sem garantia.
Quem sente o impacto
As famílias são o elo mais pressionado dessa cadeia. A inadimplência entre pessoas físicas chegou a 5,6%, com alta de 1,2 ponto percentual em 12 meses. No crédito livre, segmento com taxas mais altas e menos garantias, o atraso nos pagamentos chegou a 7,6%. Mesmo com o mercado de trabalho aquecido e a renda em expansão, o custo elevado do crédito está consumindo a capacidade de pagamento das famílias, o que se reflete direto na queda de consumo.
Esse comprometimento de renda com dívidas também é um termômetro importante para quem vende produtos e serviços ao consumidor final. O percentual de famílias endividadas ficou em 49,8% da renda acumulada em 12 meses, praticamente estável, mas o pagamento de dívidas passou a consumir 28,5% da renda mensal, o maior nível em mais de um ano. Ou seja: mesmo famílias que não aumentaram suas dívidas estão gastando mais com juros e parcelas, o que reduz o dinheiro disponível para compras no varejo, serviços e outras despesas do dia a dia.
Do lado empresarial, o quadro é diferente e mais favorável. Enquanto o crédito para pessoas físicas recuou 0,2% em junho, as concessões para empresas cresceram 1,4%, sustentando o avanço total de 0,4% no crédito concedido no mês. Isso mostra que, apesar do ambiente de juros altos, o crédito corporativo ainda encontra espaço para crescer, o que pode ser uma oportunidade para negócios que precisam de capital de giro ou investimento, desde que consigam negociar boas condições.
O que isso significa para o seu negócio
Se você vende para o consumidor final, o momento pede atenção redobrada ao fluxo de caixa e às condições de pagamento oferecidas aos clientes. Com o comprometimento de renda das famílias em alta, é natural que o consumo desacelere em produtos não essenciais e que o parcelamento se torne mais criterioso do lado do comprador. Reavaliar prazos de recebimento, políticas de crédito próprio e até o mix de produtos pode ajudar a atravessar esse período com menos impacto no caixa.
Para empresas que dependem de crédito bancário, vale lembrar que o custo médio geral das novas concessões, somando famílias e empresas, ficou em 33,4% ao ano em junho, com leve alta em relação a maio. O spread bancário, ou seja, a diferença entre o que o banco paga para captar dinheiro e o que cobra do cliente final, permaneceu em 21,9 pontos percentuais. Isso indica que, embora o crédito para empresas esteja crescendo em volume, o custo do dinheiro continua elevado e merece negociação cuidadosa antes de qualquer nova contratação.
O papel da renegociação de dívidas
O governo tenta amenizar o quadro por meio do programa Desenrola Brasil 2.0, cujo prazo para renegociação foi prorrogado até 31 de agosto. Segundo dados oficiais, cerca de 9 milhões de pessoas já usaram a iniciativa, com expectativa de chegar a 10 milhões até o fim da prorrogação. Ainda assim, os números do Banco Central mostram que os efeitos da política monetária continuam pesando mais do que os programas de renegociação, o que sugere que o cenário de juros altos e inadimplência elevada deve continuar no radar de empresários e gestores nos próximos meses.
Na prática, o recado é claro: o crédito está mais caro e mais seletivo, tanto para pessoas físicas quanto, em menor grau, para empresas. Monitorar de perto a inadimplência dos seus clientes, revisar políticas de crédito e negociar com antecedência linhas de financiamento são medidas simples que podem fazer diferença na saúde financeira do seu negócio enquanto esse ciclo de juros elevados não se reverte.
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