Investir no exterior: por que famílias ricas do Brasil buscam outros países
30/09/2026 05:004 min de leituraAtualizado há 1 hora
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
Se você administra um patrimônio relevante, seja como empresário, investidor ou gestor de recursos familiares, provavelmente já sentiu que o ambiente regulatório brasileiro ficou mais pesado. Não é impressão: um estudo da TMF Group mostra que o Brasil subiu para a terceira posição entre as jurisdições mais complexas do mundo para empresas, saindo do sexto lugar do ano anterior. Esse aumento de complexidade, somado à volta da retenção de 10% sobre dividendos pagos a acionistas que moram fora do país, está empurrando famílias de alto patrimônio a repensar onde e como mantêm seus investimentos.
O que está mudando
A reação dessas famílias não é abandonar o Brasil, mas distribuir melhor os recursos entre diferentes países. A ideia é simples: quando tudo, ou a maior parte, do patrimônio está concentrado em um único lugar, moeda ou mercado, qualquer instabilidade local afeta o conjunto inteiro. Diversificar geograficamente funciona como um seguro contra esse tipo de exposição. Segundo especialistas da TMF Group ouvidos pela reportagem original, a pergunta que essas famílias fazem hoje não é mais se devem ter ativos fora do país, mas sim qual parcela do patrimônio deve ficar exposta ao Brasil e como estruturar corretamente a parte internacional.
Os números do Banco Central confirmam esse movimento. Em 2024, brasileiros tinham cerca de US$ 620 bilhões em ativos no exterior, valor mais de três vezes maior que os US$ 196,7 bilhões registrados em 2007. Ou seja, a saída de recursos para fora do país não é um fenômeno recente, mas vem se intensificando de forma consistente há quase duas décadas.
Quem é afetado por essa tendência
Embora o estudo trate especificamente de famílias com grandes patrimônios e de estruturas como family offices, o movimento tem relação direta com qualquer empresário que tenha sócios ou investidores não residentes, ou que esteja pensando em internacionalizar parte do seu negócio ou de suas finanças pessoais. A retenção de 10% sobre dividendos pagos a quem mora fora do Brasil, por exemplo, afeta diretamente a rentabilidade de investidores estrangeiros em empresas brasileiras e pode influenciar decisões sobre onde alocar capital daqui para frente.
Na avaliação de quem elaborou o estudo, a diversificação vai muito além de buscar retorno maior em outro país. O verdadeiro objetivo é reduzir o risco de concentração: se a renda, os negócios, os imóveis, a previdência e os investimentos financeiros de uma família estão todos ligados à mesma economia e à mesma moeda, existe um risco concentrado que muitas vezes passa despercebido até que algo dê errado. Vale o mesmo raciocínio para negócios: depender de um único mercado, moeda ou marco regulatório aumenta a vulnerabilidade a mudanças bruscas de política econômica ou tributária.
Um dado chama atenção nesse contexto: entre os fatores que mais pesam na escolha de novos países para investir, estabilidade política e estabilidade econômica aparecem entre os critérios mais citados, cada um mencionado por 23% das famílias consultadas em outro levantamento citado no estudo. Isso ajuda a explicar por que países como o Uruguai, apesar de estarem na América Latina, vêm ganhando espaço como destino de estruturação patrimonial: a percepção de estabilidade pesa tanto quanto, ou até mais, do que a busca por retorno financeiro.
Como isso afeta a gestão do seu patrimônio
Se por um lado diversificar reduz riscos, por outro aumenta a complexidade de gestão. Operar em diferentes países significa lidar com regras de compliance, exigências regulatórias e obrigações de prestação de informações distintas em cada lugar. Isso exige mais organização, mais controle e, muitas vezes, apoio profissional especializado para evitar erros que podem gerar problemas fiscais ou legais tanto no Brasil quanto no exterior.
Esse cenário tem levado famílias e gestores a repensar a própria estrutura de administração do patrimônio, recorrendo a modelos que compartilham custos e conhecimento especializado entre diferentes famílias, em vez de manter tudo internamente. Para quem está começando a pensar em internacionalizar parte dos seus recursos ou negócios, o alerta prático é claro: diversificação bem planejada exige assessoria qualificada, entendimento das obrigações em cada jurisdição e uma estratégia clara sobre onde ficam os ativos, onde fica o veículo de investimento e onde a família ou os sócios são residentes fiscais. Sem esse cuidado, a busca por proteção pode se transformar em um novo tipo de dor de cabeça tributária.
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