Investidores em clima: por que o mercado está descompassado agora
16/08/2026 05:004 min de leituraAtualizado há 17 dias
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
O mercado está animado com as ofertas públicas iniciais de empresas ligadas à inovação climática. Faz sentido: mais negócios desse setor amadureceram e ganharam porte suficiente para atrair investidores institucionais e do varejo, interessados em eletrificação, energia mais resiliente e redução de emissões de carbono. O problema é que esse mesmo roteiro já se repetiu antes, e não terminou bem. Entender por que isso acontece ajuda empresários e gestores a avaliar riscos antes de embarcar em captações, parcerias ou investimentos ligados a essa onda.
Historicamente, o setor climático vive um ciclo parecido: abre-se uma janela de oportunidade para abrir capital na bolsa, algumas empresas aproveitam bem, outras entram cedo demais, e depois a janela se fecha por algum motivo externo. Quando isso acontece, os investidores mais avançados recuam, startups que captaram muito dinheiro mas não conseguiram fazer o IPO a tempo ficam paradas, e o setor inteiro carrega a fama de ser um mau negócio. Isso já ocorreu nas bolhas de tecnologias limpas do fim dos anos 1990 e de meados dos anos 2000, e também na onda recente de SPACs. O resultado, nesses casos, foi um período longo de escassez de capital para todo o setor, prejudicando empresas boas e ruins igualmente.
Uma cadeia de capital desalinhada
Para entender o risco atual, vale simplificar a jornada de financiamento de qualquer solução climática em quatro etapas. Primeiro vem o capital de inovação, aquele que banca a fase de "funciona no laboratório", com rodadas iniciais e aceleradoras. Depois entra o capital de comercialização, que transforma a inovação em produto real, geralmente vindo de fundos de venture capital em rodadas mais avançadas. Na sequência, aparece o capital de expansão, voltado a empresas que já têm receita e precisam crescer de forma consistente. Por fim, existe o capital de saída, que remunera todos os investidores anteriores por meio de venda da empresa ou abertura de capital na bolsa.
O problema é que, hoje, o capital de inovação e o capital de saída estão concentrados em tecnologia pesada, como energia nuclear e baterias avançadas. Já o capital de expansão, justamente o que sustenta o crescimento das receitas, está mais interessado em negócios com contratos de venda bem estruturados e faturamento comprovado, pouco importando se a base é tecnológica ou não. Isso cria uma lacuna entre as fases 2 e 3, exatamente o ponto em que muitas startups climáticas mais precisam de dinheiro para crescer de forma sólida antes de qualquer saída pela bolsa ou por aquisição.
Esses números, de um estudo da Cambridge Associates com mais de 1.800 investimentos entre 2000 e 2023, contrariam a ideia de que o retorno no setor climático depende necessariamente de avanços científicos revolucionários. Empresas que combinaram tecnologias já existentes com modelos melhores de financiamento, distribuição e relacionamento com clientes tiveram desempenho superior às que apostaram apenas em hardware proprietário. Um exemplo é o setor de energia solar residencial: o maior valor gerado não veio de painéis solares mais eficientes, mas de formas mais inteligentes de conquistar clientes, financiar instalações e administrar ativos no longo prazo.
O que isso significa para quem lidera um negócio
Diante da janela de IPOs aberta, muitas startups e investidores voltados a tecnologia pesada estão tentando pular a etapa de capital de expansão e ir direto para uma venda ou abertura de capital. Essa estratégia pode até funcionar enquanto o mercado está favorável, mas historicamente as janelas de IPO se fecham rápido e sem aviso. Quando isso acontece, as vendas para grandes empresas do setor também costumam esfriar, deixando negócios sem alternativa de saída e sem caixa suficiente para continuar operando de forma independente.
Para empresários e gestores que dependem de captação de recursos, seja como fundadores de negócios climáticos, seja como investidores ou parceiros comerciais dessas empresas, o alerta é claro: crescimento sustentado com contratos sólidos e receita recorrente tende a pesar mais no médio prazo do que apostas isoladas em tecnologia inovadora sem comprovação comercial. Avaliar se uma empresa tem esse tipo de base antes de fechar negócio, investir ou depender dela como fornecedora reduz a exposição a um eventual novo período de escassez de capital no setor.
O cenário não é de pessimismo total: o ecossistema de financiamento climático está mais diversificado do que há alguns anos, e isso é um avanço real. Mas a desconexão entre os diferentes tipos de capital, especialmente a lacuna no financiamento de expansão, é um risco concreto que pode se repetir se não for corrigido. Ficar atento a esse descompasso ajuda a tomar decisões mais seguras, seja você fundador buscando investimento, gestor avaliando fornecedores do setor ou empresário pensando em diversificar investimentos.
Aviso: conteúdo informativo, produzido a partir de fontes públicas e reescrito pela nossa editoria. Não substitui orientação contábil ou fiscal personalizada. Tem uma dúvida sobre o assunto? Pergunte no portal.
