IA no trabalho: por que funcionários se sentem mais prontos que as empresas
29/09/2026 14:324 min de leituraAtualizado há 1 hora
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Trabalhista e Folha, atualizado a cada mudança de norma.
Uma pesquisa feita pelo iFood em parceria com o Instituto QualiBest trouxe um alerta importante para quem lidera empresas: os funcionários estão, em média, mais preparados para usar Inteligência Artificial no dia a dia do que as próprias organizações em que trabalham. Essa diferença de percepção pode parecer um detalhe, mas na prática indica um risco real de desperdício de produtividade e de perda de controle sobre como a tecnologia está sendo usada dentro do seu negócio.
O levantamento ouviu 1.406 profissionais de todo o país, entre analistas e executivos C-level, todos atuando em empresas com mais de 100 funcionários. Os dados mostram que 69% dos entrevistados se consideram preparados para usar ferramentas de IA na rotina de trabalho, mas apenas 60% acreditam que a empresa onde atuam está igualmente preparada. Essa distância de nove pontos percentuais não é apenas estatística: ela se traduz em comportamentos concretos dentro das equipes.
O que muda na prática dentro das empresas
Um dos achados mais relevantes para quem gerencia pessoas é que, quando a empresa não oferece ferramentas de IA, o funcionário não deixa de usar a tecnologia, ele simplesmente busca alternativas por conta própria. Segundo a pesquisa, 28% dos profissionais afirmam que a empresa incentiva o uso de IA, mas que eles mesmos usam versões gratuitas ou pagam do próprio bolso por ferramentas, já que a empresa não disponibiliza nada oficialmente. Isso significa que, mesmo sem uma política formal, a IA já está sendo usada, só que de forma descontrolada, sem supervisão e possivelmente sem segurança sobre os dados da empresa.
Por outro lado, entre as empresas vistas como bem preparadas pelos próprios funcionários, 74% oferecem incentivo e ferramentas ao mesmo tempo. Já nas empresas consideradas despreparadas, esse índice cai para 42%. Ou seja, o que separa uma organização vista como avançada de outra vista como atrasada não é apenas discurso, é a combinação de incentivar o uso e efetivamente fornecer as ferramentas certas para o time trabalhar.
A distância entre o topo e a base
A pesquisa também mostra que a percepção sobre os benefícios da IA muda bastante conforme o cargo. No geral, 75% dos entrevistados dizem perceber uma contribuição positiva da IA no trabalho e nos resultados da empresa, mas esse índice sobe para 85% entre diretores e cai para 67% entre analistas. Na prática, isso indica que quem está no topo da hierarquia enxerga resultados mais claros da tecnologia, enquanto quem está na ponta da operação ainda não sente esse benefício com a mesma força, provavelmente porque não recebeu o mesmo nível de acesso, treinamento ou autonomia para usar essas ferramentas.
Já sobre o medo de perder o emprego para a IA, a pesquisa mostra que esse receio é parecido em todos os níveis hierárquicos, sem grande diferença entre cargos: 42% dos entrevistados concordam, em algum grau, que a tecnologia vai reduzir postos de trabalho, enquanto 36% discordam dessa ideia. Isso mostra que a insegurança sobre o futuro do emprego não é exclusiva de quem está na base da empresa, e vale a pena que a comunicação sobre o uso da IA seja clara para todos os níveis, não só para a liderança.
Cultura organizacional sob pressão
Outro ponto de atenção para gestores é a relação entre cultura da empresa e uso de IA. Quase todos os entrevistados (89%) concordam que a cultura organizacional é importante, mas na hora de bater metas, essa cultura costuma ceder: 41% dos líderes admitem abrir mão de valores importantes para alcançar resultados, e 56% dizem se sentir pressionados a fazer concessões. O CHRO do iFood, Raphael Bozza, destacou que esse dado chamou atenção justamente porque mostra que a cultura de uma empresa é testada nos momentos difíceis, não quando tudo está funcionando bem.
A pesquisa não afirma que uma coisa causa a outra, mas mostra uma associação clara entre cultura forte e uso consciente de IA: entre os profissionais que dizem que a cultura da empresa é "praticada sempre", 75% associam diretamente o uso da IA a esses mesmos valores. Entre o total de entrevistados, essa média cai para 55%. Para o seu negócio, isso é um sinal de que investir em cultura organizacional consistente pode ser tão importante quanto investir em tecnologia, porque uma sustenta a outra.
Diante desses números, o recado prático para empresários e gestores é direto: se sua empresa ainda não oferece ferramentas oficiais de IA, seus funcionários provavelmente já estão usando alternativas por conta própria, sem controle nem suporte. Antes de cobrar produtividade ou adoção da tecnologia, vale revisar se a empresa está de fato oferecendo o mínimo necessário, treinamento, ferramentas adequadas e uma cultura que sustente esse uso de forma consistente em todos os níveis, da diretoria à base operacional.
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