Fraude com CNPJ regular: como golpes usam empresas "legítimas" no Brasil
14/09/2026 17:303 min de leituraAtualizado há 1 hora
Fonte: Contábeis · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Fiscal e Obrigações, atualizado a cada mudança de norma.
Um levantamento da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) trouxe um alerta importante para quem administra um negócio ou lida com fornecedores e clientes pessoa jurídica: fraudadores estão usando empresas com CNPJ ativo, documentação regular e cadastro em dia para aplicar golpes. No primeiro semestre de 2026, foram identificadas 22.764 ocorrências desse tipo, uma média de 125 casos por dia, segundo dados coletados junto a 45 instituições financeiras entre junho e julho.
O ponto central da descoberta é que esses golpes não dependem mais de documentos falsificados de pessoas físicas, como acontecia antes. Agora, os criminosos criam empresas de verdade, com todos os requisitos formais cumpridos. Isso significa que o negócio passa sem problemas pelas checagens iniciais feitas por bancos e instituições financeiras, já que, no papel, está tudo em ordem.
O que muda
A principal mudança identificada é a estratégia usada para dar credibilidade ao golpe: sete em cada dez instituições que participaram do levantamento notaram um padrão de empresas com nomes parecidos com marcas conhecidas ou que usam palavras ligadas ao setor financeiro, como "fatura", "banco", "pagamentos" e "soluções financeiras". A ideia é fazer o consumidor acreditar que está lidando com uma empresa já conhecida ou confiável, principalmente no momento em que esse nome aparece na hora de um pagamento.
Segundo Filipe Pena, diretor executivo da Acrefi, o problema não está na constituição da empresa em si, mas no que acontece depois: o risco aparece quando ela começa a operar. Ou seja, ter CNPJ ativo e documentos regulares não é garantia nenhuma de que a empresa não vai ser usada para aplicar golpes contra outras empresas ou consumidores.
Quem é afetado
O impacto atinge diretamente empresas que fazem negócios com fornecedores, parceiros ou clientes pessoa jurídica, além de instituições financeiras que avaliam esses cadastros. Bancos, financeiras, sociedades de crédito direto, instituições de pagamento e cooperativas de crédito participaram do levantamento e relataram que conseguem barrar diariamente milhares de tentativas de fraude durante a abertura de contas, usando biometria, validação de documentos e monitoramento de transações.
O problema é que essas ferramentas atuam numa etapa em que a empresa já foi constituída. Antes disso, ela pode já ter sido usada para aplicar golpes contra terceiros, sem que ninguém tenha percebido o risco durante o processo de abertura do CNPJ.
Como se preparar
Diante desse cenário, a Acrefi e a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) criaram um grupo técnico para aprofundar o diagnóstico e propor soluções. Uma das ideias em estudo é criar mecanismos automatizados para checar informações cadastrais ainda durante o processo de abertura da empresa, cruzando razões sociais com marcas registradas antes mesmo da emissão do CNPJ. A proposta não é criar mais burocracia, mas conectar bases de dados que já existem, tanto públicas quanto privadas, para identificar sinais de risco antes de a empresa começar a operar.
Para o seu negócio, essa discussão reforça um ponto prático: não basta confiar apenas na existência de um CNPJ ativo para validar um parceiro comercial, fornecedor ou cliente pessoa jurídica. Vale a pena redobrar a atenção com nomes empresariais muito parecidos com marcas conhecidas, especialmente quando esse nome aparece no momento de um pagamento. Conferir a situação cadastral completa da empresa, e não apenas a regularidade formal, passa a ser um cuidado cada vez mais necessário.
As medidas discutidas pela Acrefi e pela ACSP ainda estão em desenvolvimento, mas já sinalizam uma tendência: a verificação de empresas deve ficar mais rigorosa nos próximos meses, com maior troca de informações entre instituições. Enquanto isso não se concretiza, a recomendação prática é simples: desconfie de nomes empresariais suspeitos e não dispense a checagem cuidadosa antes de fechar negócio com uma empresa desconhecida, mesmo que ela pareça formalmente regular.
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