Fertilizantes caem de preço, mas margem do produtor rural continua apertada
02/09/2026 16:363 min de leituraAtualizado há 20 horas
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
Se você trabalha com produção agrícola ou fornece insumos para o setor, vale prestar atenção num sinal que parece bom mas não é tão simples assim: os preços dos fertilizantes no mercado global caíram em relação aos picos atingidos durante a guerra entre EUA e Irã. Só que essa queda não está aliviando o bolso do produtor rural, porque os preços dos produtos agrícolas também estão baixos, o que aperta as margens de lucro de quem planta. É essa combinação que preocupa o Rabobank, banco especializado no agronegócio, segundo relatório divulgado nesta quarta-feira.
O que está pressionando os custos
Uma parte importante do transporte mundial de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz, região que sofreu interrupções desde o início do conflito entre EUA e Irã. Isso afetou principalmente os fertilizantes à base de fosfato, que dispararam de preço e, diferentemente da ureia (fertilizante à base de nitrogênio), não deram sinais de alívio. O motivo é o enxofre, insumo essencial para fabricar fosfatos, cujo preço segue em níveis recordes.
O Oriente Médio responde por quase metade de todo o enxofre exportado no mundo, e os embarques dessa matéria-prima caíram praticamente pela metade com a extensão do conflito. Segundo o Rabobank, a expectativa é que o acesso aos fosfatos continue difícil pelo menos até julho do próximo ano. Mesmo que a China retome suas exportações e traga algum alívio, o banco não acredita que isso seja suficiente para reequilibrar o mercado.
Por que isso afeta sua margem
Para quem produz, o problema não é só o preço do insumo isoladamente, mas a conta como um todo. Fertilizante mais caro e produto agrícola mais barato formam uma combinação ruim: o custo de produção sobe (ou não cai na mesma proporção) enquanto a receita da venda da safra fica pressionada. É esse aperto de margem que o Rabobank destaca como o principal desafio no momento, mais do que a variação isolada do preço do fertilizante.
Apesar disso, o cenário geral de abastecimento de commodities agrícolas, como milho, arroz e trigo, segue considerado confortável, graças aos estoques globais acumulados. Mesmo com queda esperada na produção desses grãos neste ano, os estoques altos devem manter os preços dentro de faixas previsíveis, ainda que próximos do teto dessas faixas. O banco avalia que o mercado atual está mais preparado para absorver choques do que estava em situações de aperto mais severas, como as observadas em meados dos anos 2000.
O que muda para o Brasil
Como um dos maiores importadores e também um dos maiores consumidores de fertilizantes do mundo, o Brasil está no centro dessa conversa. O Rabobank sinaliza que novos ajustes para baixo nas entregas de fertilizantes ao país ainda são possíveis, dada a complexidade da situação no Oriente Médio. A previsão para 2026 já foi revisada uma vez neste ano, justamente por causa desse cenário mais incerto de fornecimento e preço do enxofre.
Na prática, isso significa que produtores e empresas do agronegócio brasileiro devem se preparar para um ambiente de custo de insumo ainda instável, mesmo que os preços não voltem aos picos da guerra. Quem depende de fosfato para adubação deve monitorar de perto esse mercado, já que ele é o mais afetado e o que tem menor perspectiva de melhora no curto prazo.
Se você atua no agronegócio, o recado prático é: não confie apenas na queda geral dos preços de fertilizantes para aliviar o planejamento financeiro da safra. Vale revisar contratos de compra de insumos, buscar alternativas de fornecimento e, principalmente, calcular com cuidado a margem real do negócio, considerando tanto o custo do fertilizante quanto o preço de venda da produção. Um bom planejamento tributário e de fluxo de caixa pode ajudar a atravessar esse período de margens mais apertadas sem comprometer a saúde financeira da empresa.
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