El Niño pode causar perda de R$ 33 bi na soja: veja o risco para seu negócio
27/10/2026 13:214 min de leituraAtualizado há 2 dias
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de BPO Financeiro, atualizado a cada mudança de norma.
Se você trabalha com soja, seja plantando, financiando, comprando ou vendendo insumos para quem planta, precisa ficar de olho em um alerta que acaba de ser divulgado. Um estudo da Serasa Experian mostra que, em um cenário de El Niño forte, a safra brasileira de soja 2026/27 pode cair quase 10%, colocando R$ 33 bilhões em risco. O problema chega em um momento delicado: o endividamento no crédito rural já está alto, e uma quebra de safra pode apertar ainda mais o caixa de quem já vive no limite financeiro.
O que o estudo descobriu
A pesquisa comparou dados de satélite, histórico de produtividade e o comportamento do clima em safras passadas para estimar o que pode acontecer em 2026/27. Em um cenário sem problemas climáticos, a colheita nacional de soja chegaria a 181,2 milhões de toneladas. Mas, sob um El Niño forte, esse volume pode cair para 163,6 milhões de toneladas, uma perda de 17,6 milhões de toneladas. Traduzindo em dinheiro, usando o preço médio da tonelada, isso representa R$ 33 bilhões a menos entrando no bolso dos produtores, o equivalente a 9,4% de tudo que a cultura deve faturar no período.
É importante entender que isso não é uma previsão fechada do que vai acontecer, e sim um exercício de dimensionamento de risco. Ou seja: ninguém está dizendo que a safra vai quebrar, mas sim mostrando o tamanho do prejuízo possível caso o clima seque de forma severa nos próximos meses, principalmente entre novembro e janeiro, período crítico para o florescimento e o enchimento dos grãos.
Quem sente mais o impacto
O risco não é igual para todo mundo. Mato Grosso e Goiás concentram quase 80% da possível perda nacional. Em Mato Grosso, a produção pode cair de cerca de 51 milhões para 41 milhões de toneladas. Em Goiás, a diferença potencial chega a 4 milhões de toneladas, com destaque para as áreas de sequeiro (sem irrigação) no norte e leste do estado. Minas Gerais também aparece na lista de regiões mais vulneráveis, com queda estimada de 1,5 milhão de toneladas.
Já o Rio Grande do Sul tem um comportamento oposto: o modelo aponta possibilidade de aumento na produção, de 16 milhões para até 22 milhões de toneladas. Mas esse ganho não é motivo para comemorar sem ressalvas, porque ele não compensa as perdas do Centro-Oeste, e o excesso de chuva traz seus próprios riscos, como solo encharcado, dificuldade na colheita e mais doenças na lavoura.
Por trás desse risco climático existe um problema que já vinha se formando: o endividamento do setor agropecuário. Segundo o Banco Central, a carteira problemática do crédito rural chega a R$ 205,46 bilhões, o que representa 23,8% de toda a carteira de crédito do agro. Um ano antes, em agosto de 2025, essa proporção era de 17,1%. Ou seja, mesmo antes de qualquer quebra de safra, a inadimplência no setor já estava crescendo.
Segundo Marcelo Pimenta, head de agronegócios da Serasa Experian, o efeito de uma eventual quebra sobre a inadimplência vai depender muito da situação de cada produtor e da região onde ele planta. Quem já está muito alavancado, com pouca margem para renegociar dívidas, fornecedores e arrendamentos, tende a sentir mais o aperto no caixa. Pimenta reforça que o que mais prejudica o produtor, ao longo do tempo, não é um ano ruim isolado, mas sim anos seguidos de gestão financeira desorganizada: assumir compromissos com expectativas de produtividade que não se confirmam na prática.
Vale destacar que, embora os pedidos de recuperação judicial no agro chamem atenção (foram 448 só no segundo trimestre de 2026), o problema mais silencioso e mais frequente é a inadimplência do dia a dia, que afeta muito mais produtores do que os casos extremos que chegam à Justiça.
Como se preparar
O estudo não serve apenas como alerta: ele também aponta caminhos. Entre as medidas de mitigação estão a escolha de sementes mais resistentes à falta de água, o escalonamento das datas de plantio para reduzir a exposição a um período seco concentrado, e investimentos em irrigação, quando viável. Para quem está à frente do negócio, seja na fazenda, seja fornecendo crédito ou insumos para o produtor, acompanhar de perto o fluxo de caixa, os custos e o nível de endividamento passa a ser tão importante quanto monitorar o clima.
Até aqui, cerca de 40% da área nacional de soja já havia sido semeada, mas isso não elimina o risco: o que vai definir o resultado da safra é o comportamento das chuvas nos próximos meses, especialmente no Centro-Oeste. O recado prático é simples: quem depende da soja, direta ou indiretamente, ganha tempo precioso se já começar agora a revisar contratos, prazos de pagamento e margem de segurança financeira, em vez de esperar o resultado da colheita para agir.
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