Créditos de carbono no agro: como funcionam e o que ganha o produtor
27/08/2026 05:004 min de leituraAtualizado há 7 dias
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
Um mercado que até pouco tempo parecia distante da realidade do produtor rural brasileiro começa a ganhar corpo financeiro. Segundo um estudo da Carbonn Nature, do Instituto Equilíbrio e do Instituto de Estudos do Agronegócio (IEAg), o agronegócio nacional pode gerar até 314,3 milhões de créditos de carbono até 2035, movimentando um potencial de mercado de até R$ 3,5 bilhões. Mais do que uma nova fonte de renda para quem planta, esse movimento já desperta interesse de bancos, tradings e grandes indústrias de alimentos, que precisam reduzir emissões em suas cadeias de fornecimento.
Se você é gestor de uma propriedade rural ou de um negócio ligado ao agro, vale entender que esse mercado não se resume à venda direta de créditos de carbono. Na prática, ele está mudando a forma como empresas escolhem seus fornecedores e como bancos avaliam linhas de crédito. Quem consegue comprovar boas práticas ambientais já está tendo acesso a financiamentos com juros menores, contratos de exportação e negociações com empresas que exigem rastreabilidade ambiental na cadeia produtiva.
O que está em jogo além do crédito de carbono
Durante anos, a discussão sobre carbono na agricultura girou em torno de uma única pergunta: quanto o produtor recebe por tonelada de carbono sequestrado. Segundo especialistas do setor, essa visão já não reflete a realidade do mercado. O crédito de carbono em si é apenas uma fatia pequena de um conjunto maior de oportunidades, que inclui linhas de financiamento verde, valorização de commodities com menor pegada ambiental e, principalmente, a aproximação entre produtores e empresas que precisam reduzir suas chamadas emissões de Escopo 3, ou seja, as emissões indiretas geradas por toda a cadeia de fornecimento.
É justamente nesse ponto que companhias como tradings de grãos e indústrias globais de alimentos entram em cena. Para essas empresas, reduzir emissões deixou de ser apenas discurso de sustentabilidade e passou a ser compromisso corporativo assumido globalmente. Por isso, elas buscam ativamente produtores capazes de comprovar, com dados auditáveis, que produzem de forma mais sustentável. Isso já resultou em negócios concretos, como contratos de exportação de soja e demanda crescente por trigo com comprovação ambiental.
Para dimensionar essa mudança, uma plataforma de agricultura regenerativa mantida por uma grande empresa do setor já reúne mais de 3,1 milhões de hectares e cerca de 3 mil produtores na América Latina, sendo aproximadamente 1 milhão de hectares só no Brasil. Nessas áreas monitoradas, foram registrados aumento médio de 11% na produtividade e ganho de 9% na estabilidade da produção, além do sequestro de carbono mencionado acima. Ou seja: mesmo antes de qualquer pagamento relevante por créditos, o produtor já colhe resultado financeiro indireto por meio de mais produtividade e solo mais saudável.
Nem sempre o retorno é imediato em dinheiro
A experiência de produtores que já participam desses programas há anos mostra que a remuneração direta por tonelada de carbono ainda é modesta. Em um dos casos relatados, o pagamento chegou a cerca de US$ 5 por hectare em uma área de 200 hectares monitorada, valor considerado baixo diante do esforço de adequação. Por outro lado, o acesso a linhas de financiamento com condições melhores e a abertura de mercados específicos para grãos com comprovação de sustentabilidade têm compensado, na avaliação desses produtores, a demora em ver o carbono virar receita relevante.
Outro ponto de atenção para quem pensa em entrar nesse tipo de programa é o prazo dos contratos. Um dos produtores ouvidos firmou compromisso de 25 anos com a empresa parceira, prazo considerado longo e que exige cautela antes da adesão. Ele também pondera que a regulamentação do mercado de carbono no Brasil ainda não está totalmente clara, o que dificulta enxergar uma remuneração previsível no curto e médio prazo. Na visão dele, se houvesse um valor fixo e claro por hectare para adoção de determinada prática, o interesse dos produtores cresceria muito mais rápido, porque o incentivo financeiro ficaria evidente.
O que considerar antes de aderir
Para o empresário rural, a lição prática é que investir em práticas como plantio direto, rotação de culturas, plantas de cobertura e manejo mais conservacionista do solo traz ganhos que vão muito além do carbono: mais produtividade, solo mais resistente a períodos de seca e melhor posição para negociar crédito e contratos comerciais. Um dos produtores relatou, por exemplo, queda de 40% no regime hídrico da sua região nos últimos anos, mas notou que as lavouras mantiveram potencial produtivo que não existia antes da adoção dessas práticas, um efeito atribuído à melhoria da estrutura do solo e à maior retenção de água.
Antes de entrar em um programa de carbono, vale avaliar com cuidado o prazo do contrato, a credibilidade da empresa parceira e se as práticas exigidas já fazem sentido para a sua operação, independentemente do crédito de carbono. Também é importante ficar atento a sinais do mercado, como o interesse crescente de tradings, indústrias de alimentos e bancos por fornecedores com comprovação ambiental, já que esse movimento tende a se intensificar e pode se tornar, no futuro, um critério de competitividade tão relevante quanto preço e qualidade do produto.
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