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Stablecoins e dolarização: o Brasil corre risco ou está protegido?

11/08/2026 14:255 min de leituraAtualizado há 23 dias

Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de E-commerce e Marketplace, atualizado a cada mudança de norma.

Um discurso do Fundo Monetário Internacional voltou a colocar as stablecoins no centro do debate sobre estabilidade financeira em países emergentes. Dan Katz, primeiro vice-diretor do FMI, alertou que esses ativos digitais referenciados em moeda estrangeira, na prática quase sempre o dólar, podem tornar mais rápida e mais fácil a fuga para moedas fortes em momentos de crise. O Brasil não foi citado diretamente na fala, mas os dados do próprio Fundo e da Receita Federal mostram que o tema já é relevante para quem faz negócios aqui.

Na prática, o que preocupa o FMI não é a existência das stablecoins em si, mas a velocidade que elas trazem. Antes, dolarizar recursos exigia abrir conta no exterior, comprar moeda em espécie ou manter depósitos em dólar, processos que levam tempo e passam por intermediários tradicionais. Hoje, um ativo digital atrelado ao dólar pode ser comprado pelo celular, movimentado a qualquer hora e guardado em uma carteira digital, sem depender de horário bancário ou de burocracia. Isso pode intensificar a saída de capital justamente nos momentos em que a economia está mais fragilizada.

Quem é afetado e por quê

Segundo o FMI, o risco varia de país para país, dependendo da inflação, da volatilidade cambial, da confiança nas instituições e do quanto a economia já usa moeda estrangeira no dia a dia. Países com fundamentos macroeconômicos sólidos e acesso mais aberto ao dólar tendem a sofrer menos com esse fenômeno. No Brasil, a Receita Federal registrou que as stablecoins já representam cerca de 80% do volume de criptoativos declarado em 2025, e as operações de compra e venda desses ativos somaram R$ 1,13 trilhão em volume bruto desde 2019. A maior parte desse mercado é dominada por ativos ligados ao dólar: a USDT concentra quase 89% do volume, a USDC responde por 7% e a BRZ, atrelada ao real, fica com pouco mais de 3%.

Uma avaliação do próprio FMI sobre o sistema financeiro brasileiro, divulgada em julho, mostrou que o mercado de criptoativos no país, principalmente as stablecoins em dólar, cresceu rapidamente desde 2017 e avançou mais rápido do que os fluxos tradicionais de capital e o próprio PIB. O Fundo apontou ainda que fatores externos, como o índice de volatilidade dos mercados globais, o preço do bitcoin e o desempenho da bolsa americana, ajudam a explicar boa parte da variação nas compras de stablecoins por aqui, com sensibilidade a choques internacionais de duas a três vezes maior do que a de investimentos tradicionais. Mesmo assim, o FMI considerou que os riscos sistêmicos ainda estão contidos, recomendando apenas acompanhamento mais próximo.

Especialistas consultados reforçam que o Brasil tem uma proteção importante que muitos países emergentes não têm: o Pix. Com mais de 170 milhões de usuários, o sistema oferece pagamento instantâneo, barato e amplamente acessível em reais, o que reduz o interesse em usar dólar digital nas compras do dia a dia. A leitura predominante é que Pix e stablecoins não competem no mesmo terreno: um é o meio de pagamento doméstico, o outro pode se tornar um canal de acesso ao dólar para quem busca proteção patrimonial. O risco real, segundo essa avaliação, não está na substituição do real nas transações cotidianas, mas na tentação de famílias e empresas migrarem parte de suas reservas de valor para ativos em dólar.

Como isso pode afetar o seu negócio

É importante entender que comprar uma stablecoin não significa, automaticamente, tirar dinheiro do país. Muitas vezes é apenas a troca de um ativo em reais por um ativo privado referenciado em dólar, mantido dentro do sistema financeiro nacional. A saída de capital de fato só ocorre quando esses recursos são transferidos para fora. Mas as stablecoins facilitam esse movimento por funcionarem 24 horas por dia, sem as etapas tradicionais dos bancos, e por permitirem envio direto para plataformas estrangeiras ou carteiras que não dependem de instituição financeira.

Para empresários e investidores, isso significa que as stablecoins não criam uma crise cambial do nada, mas podem acelerar e amplificar um movimento que já teria fundamento em problemas econômicos reais, como perda de confiança fiscal, alta da inflação ou forte desvalorização do real. Como o país opera com câmbio flutuante e sem controles amplos de acesso ao dólar, o efeito mais provável de um cenário de estresse não seria uma perda brusca de reservas internacionais, mas sim uma desvalorização mais rápida da moeda nacional, com possível repasse para os preços internos.

O que já mudou na regulação

O Banco Central já deu um passo concreto para monitorar esse mercado. Em novembro de 2025, publicou as Resoluções BCB 519, 520 e 521, que passaram a valer em fevereiro deste ano e trouxeram regras para prestadoras de serviços de ativos virtuais. A Resolução 521 incluiu no mercado de câmbio operações como pagamentos internacionais com criptoativos e a compra, venda ou troca de ativos referenciados em moedas estrangeiras, categoria que abrange justamente USDT e USDC. Isso não transforma essas stablecoins em moeda estrangeira do ponto de vista jurídico, mas obriga as instituições que operam com elas a seguir regras de identificação de clientes, verificação de origem dos recursos e prestação de informações ao Banco Central, de forma parecida com o que já existe para operações de câmbio tradicionais.

Para quem administra uma empresa, o recado prático é claro: se você usa ou pretende usar stablecoins para pagamentos internacionais, proteção cambial ou diversificação de caixa, vale conhecer essas novas regras e verificar se a plataforma que você utiliza está dentro do perímetro regulatório do Banco Central. Também é hora de revisar sua exposição cambial de forma consciente, entendendo que a facilidade de acesso ao dólar digital pode ser uma ferramenta útil de proteção patrimonial, mas também um fator que aumenta a volatilidade em momentos de instabilidade. Ficar de olho nos fundamentos econômicos do país, mais do que na tecnologia em si, continua sendo o melhor termômetro para decidir quando e como usar esses ativos no planejamento financeiro do seu negócio.

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