Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
Um levantamento recente mostra que as stablecoins, moedas digitais atreladas ao dólar, já respondem por uma fatia relevante das transações com criptomoedas em vários países da América Latina. Mais do que uma moda financeira, esse movimento reflete uma resposta prática a problemas conhecidos por quem faz negócios na região: inflação alta, moeda local instável e dificuldade de movimentar dinheiro entre países de forma rápida e barata. Para empresários e gestores, entender essa tendência já deixou de ser curiosidade e passou a ser relevante na hora de pensar em pagamentos internacionais, proteção de caixa e relacionamento com fornecedores ou clientes estrangeiros.
O que está acontecendo
Entre julho de 2022 e junho de 2025, o mercado latino-americano de criptomoedas movimentou US$ 1,5 trilhão. Só em 2025, o volume somou US$ 730 bilhões, cerca de 10% de tudo que foi transacionado no mundo. Desse total, as stablecoins tiveram papel central: foram registrados US$ 5,6 trilhões em fluxo desses ativos e US$ 142 bilhões em transferências internacionais ao longo do ano. O uso de criptomoedas na região cresceu 76% em 2025 na comparação com o ano anterior, e a expectativa é que as stablecoins cheguem a representar entre 65% e 70% de todas as transações com criptomoedas até 2030.
O Brasil aparece como líder regional, com US$ 318,8 bilhões em volume de transações em 2025, participação de 90% das stablecoins nesse total e crescimento anual de 109,9%. O país também é apontado como tendo boa clareza regulatória, o que facilita a vida de quem quer operar dentro da lei. Argentina, México e Venezuela também registraram números expressivos, cada um com seu próprio nível de maturidade regulatória, como mostra a tabela abaixo.
| País | Volume em 2025 | Crescimento anual | Participação de stablecoins | Clareza regulatória |
|---|---|---|---|---|
| Brasil | US$ 318,8 bilhões | 109,9% | 90% | Alta |
| Argentina | US$ 93,9 bilhões | 63% | 61% | Média |
| México | US$ 71,2 bilhões | 52% | 55% | Média |
| Venezuela | US$ 44,6 bilhões | 50% | 46% | Baixa |
Por que isso acontece
Em países com inflação descontrolada, como Venezuela e Argentina, guardar dinheiro em moeda local significa perder poder de compra rapidamente. Na Venezuela, a inflação chegou a 475% em dezembro de 2025, e na Argentina passou de 32% em janeiro de 2026. Diante desse cenário, muita gente passou a usar stablecoins atreladas ao dólar, como USDT e USDC, tanto para guardar valor quanto para pagar despesas do dia a dia. É uma forma de proteção que não depende de abrir conta em banco americano nem de burocracia.
Outro motivo forte é o custo das remessas internacionais. A América Latina movimentou US$ 142 bilhões em remessas em 2025, e uma parte crescente dessas transferências já é feita em stablecoins. O motivo é simples: enquanto os canais bancários tradicionais cobram entre 4% e 10% de taxa, alguns corredores de criptomoedas cobram menos de 2%. Isso gera uma economia estimada em US$ 3,8 bilhões por ano para quem usa esse caminho, com cerca de 9,3 milhões de usuários já adotando criptomoedas para esse fim.
Há ainda o fator inclusão financeira. Parte significativa da população latino-americana não tem conta em banco ou tem acesso limitado a serviços financeiros tradicionais. Carteiras digitais em celular e corretoras de criptomoedas preenchem essa lacuna, permitindo guardar dinheiro, pagar contas e enviar recursos para o exterior sem depender de uma agência bancária. Plataformas como Mercado Bitcoin, no Brasil, Ripio, na Argentina, e Bitso, no México, cresceram justamente oferecendo esse caminho mais simples de converter moeda local em criptomoeda.
O que muda para quem faz negócios
A regulamentação está correndo atrás da prática. No Brasil, o Banco Central operacionalizou, a partir de fevereiro de 2026, as autorizações de funcionamento para prestadores de serviços de ativos virtuais (VASPs), com exigências de prevenção à lavagem de dinheiro, transparência e capital mínimo entre US$ 2 milhões e US$ 7 milhões. Na Argentina, desde setembro de 2025, esses prestadores precisam estar registrados, com verificação rigorosa de identidade de clientes e envio de relatórios às autoridades de combate à lavagem de dinheiro. México e El Salvador também têm regras próprias, em estágios diferentes de maturidade.
Para empresas brasileiras que lidam com fornecedores, clientes ou parceiros em outros países da região, esse movimento traz uma mudança prática: já existe um caminho regulamentado, com regras mais claras, para usar stablecoins em pagamentos e recebimentos internacionais. Isso pode significar menos custo e mais agilidade em transações que hoje passam pelo sistema bancário tradicional. Por outro lado, exige atenção redobrada às exigências de compliance e prevenção à lavagem de dinheiro que já estão em vigor no país.
Se o seu negócio recebe pagamentos do exterior, paga fornecedores internacionais ou pensa em
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