Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Reforma Tributária, atualizado a cada mudança de norma.
Se você tem empresa no Rio Grande do Sul, provavelmente já sentiu na prática o que os números só confirmam: o estado é rico, tem um agronegócio forte e universidades de peso, mas cresce menos do que poderia. Com um PIB de R$ 650,11 bilhões, o RS é a quinta maior economia do Brasil, segundo o IBGE. Ainda assim, especialistas ouvidos apontam que o ritmo de crescimento gaúcho está atrás da média nacional e, principalmente, atrás de Santa Catarina e Paraná, seus vizinhos diretos na disputa por investimentos e mão de obra.
Para quem decide onde abrir uma filial, expandir a produção ou contratar, esse cenário importa. O professor da UFRGS Mauricio Weiss explica que o Rio Grande do Sul vem perdendo espaço porque outros estados do Sul adotaram políticas mais agressivas para atrair empresas, enquanto o RS vê jovens e mão de obra qualificada migrarem para esses novos polos. Some-se a isso a menor taxa de fecundidade do país e uma população que envelhece mais rápido, o que reduz a força de trabalho disponível e pressiona por ganhos de produtividade.
O que pesa nas contas do estado
Um dos pontos mais sensíveis é o rombo fiscal. O RS foi um dos primeiros estados a criar uma previdência universal para servidores públicos, ainda nos anos 1980, e hoje gasta mais com aposentados do que com quem está na ativa. Isso deixa pouco espaço no orçamento para investimentos em infraestrutura, o que afeta diretamente empresas que dependem de estradas, ferrovias e logística para escoar produção, como é o caso da indústria da Serra Gaúcha, que convive com gargalos rodoviários e falta de malha ferroviária há anos.
O ex-secretário da Fazenda gaúcha, Aod Cunha, é direto: sem ajuste fiscal e controle de gastos, não sobra dinheiro para investir. A saída indicada por ele é apostar em parcerias público-privadas e concessões, caminho que pode destravar obras de infraestrutura mesmo com a dívida do estado ainda alta em relação à receita.
Agro forte, mas dependente do clima
O agronegócio é o motor mais visível da economia gaúcha: o estado responde por cerca de 70% da produção nacional de arroz e está entre os líderes em soja, milho e trigo. O problema é que essa força vem com um preço. Cerca de 85% do território gaúcho é ocupado pela produção agrícola, e o RS é a região do Brasil com maior incidência de secas graves nos últimos 30 anos, segundo o INPE.
Vale lembrar que esse crescimento pós-desastre não significa recuperação real: parte dele é apenas o custo de reconstruir o que foi destruído, como maquinário, casas e infraestrutura, algo que o PIB não capta. Por isso, a recomendação dos especialistas para o próximo governo é reduzir a dependência do agro investindo em setores de maior valor agregado, como tecnologia, inovação e serviços voltados à exportação.
Reforma tributária e retenção de talentos
Um fator que pode ajudar o RS a competir em condições mais justas é a reforma tributária. Ao migrar a cobrança de imposto para o local de consumo e acabar aos poucos com a guerra fiscal via ICMS, a reforma elimina a vantagem de estados que davam isenções agressivas para atrair empresas, algo que o RS, com pouca folga orçamentária, não conseguia bancar. Na avaliação de Weiss, isso tende a equalizar a disputa entre os estados do Sul, deslocando a competição para qualidade do ambiente de negócios, infraestrutura e capital humano.
É justamente no capital humano que mora outro ponto de atenção para quem contrata no estado. O RS tem um parque universitário forte, com instituições como UFRGS, PUCRS e Unisinos, além de polos de inovação como o Instituto Caldeira, o Tecnopuc e o Tecnosinos. O problema não é falta de formação, mas de retenção: segundo Weiss, o estado forma gente qualificada, mas ela vai embora. Cunha complementa que o RS tem a menor taxa de entrada de população do país, ou seja, o desafio não é impedir a saída de gaúchos, mas atrair gente de fora e criar condições para que quem já está qualificado decida ficar.
Para o empresário gaúcho, esse conjunto de fatores, clima, dívida pública e fuga de talentos, ajuda a explicar por que planejar investimentos no estado exige cautela redobrada com cenários climáticos e atenção a políticas de infraestrutura e incentivo que possam surgir com a reforma tributária. Ficar de olho em concessões, parcerias público-privadas e programas de atração de mão de obra qualificada pode fazer diferença na hora de decidir onde e como expandir o negócio nos próximos anos.
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