Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
O Grupo Casas Bahia protocolou, no domingo, 16 de agosto, um pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo. A Justiça ainda vai decidir se autoriza o processamento. O documento aponta um passivo de aproximadamente R$ 17,3 bilhões, sendo cerca de R$ 16,4 bilhões em créditos sem garantia real, espalhados entre mais de 19 mil credores. Esse é um marco importante na trajetória de uma marca que, por décadas, foi sinônimo de crediário e consumo popular no Brasil.
Vale explicar uma confusão comum: esse valor de R$ 17,3 bilhões não é o mesmo que os R$ 34,17 bilhões em obrigações que aparecem no balanço consolidado de junho. São conceitos diferentes, com abrangências distintas, e não devem ser somados ou comparados diretamente.
Uma história construída sobre o crediário
A empresa nasceu em 1952, quando Samuel Klein, sobrevivente do Holocausto, chegou ao Brasil e começou vendendo roupas de cama, mesa e banho de porta em porta em São Caetano do Sul. Depois abriu a primeira loja, batizada de Casa Bahia em referência aos migrantes nordestinos que formavam boa parte de sua clientela. O grande diferencial do negócio sempre foi o parcelamento: vender móveis e eletrodomésticos por meio do carnê, alcançando consumidores com pouco acesso a bancos. Esse modelo permitiu à empresa chegar a mais de 500 lojas em oito estados e 23 milhões de consumidores já em 2007.
O crediário nunca deixou de ser relevante, mesmo com a chegada dos cartões de crédito e do comércio eletrônico. No segundo trimestre de 2025, essa modalidade representava uma carteira de R$ 6,2 bilhões, equivalente a 17% da receita bruta da companhia. Campanhas publicitárias como "Quer pagar quanto?" e o mascote Baianinho ajudaram a fixar essa identidade popular, associando a marca a preço baixo e facilidade de pagamento.
Da fusão com o Pontofrio às mudanças de nome
A estrutura societária atual começou a se formar em 2009, quando o GPA comprou o controle da Globex, dona do Pontofrio, e uniu as operações das duas redes. Nos anos seguintes, a empresa passou por diversas transformações: virou Via Varejo em 2012, mudou o código na bolsa algumas vezes e, em 2023, adotou o nome Grupo Casas Bahia, com o código BHIA3. A partir de 2018, a companhia investiu pesado em serviços financeiros e tecnologia, mas essa aposta digital exigiu capital que pesou nos resultados, levando a empresa a anunciar em 2023 um plano de volta ao básico, com corte de estoques e despesas.
Por que o novo pedido não significa que a dívida quadruplicou
Em abril de 2024, a companhia já havia apresentado à Justiça um plano de recuperação extrajudicial para alongar R$ 4,07 bilhões em dívidas financeiras sem garantia. A proposta foi aprovada com apoio de credores que detinham 54,53% dos créditos, percentual suficiente graças a uma mudança na Lei de Recuperação Judicial feita em 2020, que reduziu o quórum exigido para mais da metade dos créditos de cada categoria. Uma conversão de dívidas em ações realizada em 2025 ainda ajudou a reduzir a dívida líquida em cerca de 40%, mas isso não foi suficiente para deter os prejuízos.
Especialistas consultados pela reportagem original alertam que comparar os R$ 4,07 bilhões renegociados em 2024 com os R$ 17,3 bilhões do pedido atual é um erro. Trata-se de universos diferentes: o valor de 2024 cobria apenas uma parte específica das dívidas financeiras, enquanto o pedido atual tem abrangência muito maior sobre todo o passivo da empresa. O ponto central é que alongar prazos de pagamento resolve um problema de curto prazo, mas não ataca a causa real, que é a dificuldade de gerar caixa suficiente para sustentar a operação.
Os números recentes ilustram bem esse cenário: no primeiro trimestre de 2026, a receita líquida cresceu 6,1%, chegando a R$ 7,42 bilhões, e o lucro operacional (Ebitda ajustado) avançou 4,7%. Mesmo assim, o resultado financeiro líquido foi negativo em R$ 1,17 bilhão, levando a um prejuízo de R$ 1,06 bilhão no período. Ou seja, a empresa até vendia mais, mas o peso das dívidas e dos juros consumia o que a operação produzia.
O que isso significa para quem observa o mercado
Para empresários e gestores, o caso das Casas Bahia é um lembrete de que renegociar dívidas ganha tempo, mas não substitui uma operação financeiramente saudável. Uma empresa pode até crescer em vendas e ainda assim acumular prejuízos se a estrutura de capital, os juros e o endividamento consumirem os resultados operacionais. Fica também o alerta sobre a importância de acompanhar de perto indicadores como geração de caixa, e não apenas receita ou lucro operacional, na hora de avaliar a saúde real de um negócio.
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