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Por que a produtividade, não os juros, define o crescimento do Brasil

27/08/2026 14:404 min de leituraAtualizado há 6 dias

Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.

Uma analogia simples resume um debate que afeta diretamente o bolso e o planejamento de qualquer negócio: se há café e água para apenas metade das pessoas numa sala, dobrar o dinheiro de todo mundo não deixa ninguém mais rico, apenas encarece o café e a água. Foi assim que o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, explicou por que o Brasil não pode confiar apenas em juros e crédito para crescer. A mensagem é direta: riqueza vem de produção, não de dinheiro circulando. Para empresários, isso ajuda a entender por que os juros seguem altos e por que a inflação, mesmo quando desacelera, não traz de volta os preços mais baixos de antes.

O que muda no diagnóstico da inflação

Desde 2020, o mundo enfrentou uma sequência de choques (pandemia, guerra na Ucrânia, mudanças em cadeias produtivas e novas barreiras comerciais) que empurraram os preços para patamares mais altos e ali os mantiveram. Isso significa que quando a inflação anual cai, isso não quer dizer que os preços voltaram ao nível de anos atrás: apenas que estão subindo mais devagar. Para o seu negócio, isso explica por que custos de insumos, aluguel e serviços continuam pesados mesmo com indicadores oficiais mostrando desaceleração. A referência real de qualquer empresa ou família não é a taxa de inflação, mas o preço que ela paga hoje comparado ao que pagava antes.

Essa distinção tem uma consequência prática para a política econômica: o Banco Central consegue conter o excesso de demanda, mas não tem ferramentas para reconstruir cadeias produtivas, ampliar infraestrutura ou aumentar produtividade. Isso é papel de reformas estruturais, investimento e concorrência, não de taxa de juros.

Por que o Brasil está em pleno emprego e o que isso muda

O país vive um momento em que o consumo, a renda e o crédito cresceram mais rápido do que a capacidade produtiva. Isso gera pleno emprego, inflação de serviços acima da meta e déficit externo, um quadro em que a política monetária restritiva funciona como resposta a esse desequilíbrio. É importante entender que, em uma economia próxima do pleno emprego, estimular ainda mais a demanda não aumenta a produção, apenas eleva preços e importações. Por isso, medidas de incentivo ao consumo tendem a ter efeito limitado neste momento, e o empresário que planeja expansão precisa considerar que o crescimento sustentável depende de aumentar oferta, não apenas vender mais para uma demanda já aquecida.

Economia abaixo do pleno emprego

  • Demanda insuficiente trava a produção
  • Estímulo ajuda a reativar empresas e empregos
  • Cenário descrito por Keynes há 90 anos

Economia em pleno emprego (cenário atual)

  • Demanda cresce mais rápido que a oferta
  • Estímulo eleva preços e importações, não produção
  • Exige juros mais altos para conter desequilíbrio

Outro ponto levantado por Galípolo tem impacto direto na forma como o país enxerga sua própria produtividade: a ideia de que o brasileiro produz menos por características culturais é um erro histórico. No passado, japoneses e coreanos também foram descritos como pouco produtivos, antes de se tornarem referências mundiais em eficiência. A questão real não é "por que o brasileiro produz pouco", mas quais regras, concorrência, previsibilidade regulatória e acesso a mercados permitem que empresas e setores produzam mais. Isso muda o foco do debate: em vez de buscar culpados, é preciso olhar para o ambiente de negócios que trava ou libera a produtividade.

O que isso significa na prática para quem empreende

O Brasil tem vantagens reais em momentos de instabilidade global: mercado interno grande, matriz energética diversificada e força em commodities e alimentos. Essas vantagens amortecem choques externos, mas não substituem uma estratégia de crescimento. A agricultura brasileira avançou bastante em produtividade, enquanto indústria e serviços seguem com dificuldade para acompanhar esse ritmo. Ou seja, ganhos de eficiência ainda não se espalharam por toda a economia, o que limita o potencial de expansão de negócios fora do agronegócio.

Há ainda um fator externo que pressiona o custo do dinheiro no Brasil: com o fim do período de juros muito baixos no mundo, grandes economias como Estados Unidos, Alemanha e Japão passaram a disputar capital para financiar reindustrialização, energia e tecnologia. Isso encarece o crédito globalmente, inclusive para o Brasil. Um juro alto pode atrair investidor de curto prazo, mas não substitui o que realmente sustenta investimento produtivo de longo prazo: estabilidade macroeconômica, segurança jurídica e boa infraestrutura. Para o empresário que busca crédito ou parcerias com investidores, isso reforça que confiança institucional pesa tanto quanto taxa de retorno.

O recado final é prático: o país não está fadado a crescer pouco, mas também não pode seguir crescendo apenas com consumo e crédito, esperando que a produção se ajuste sozinha. Cedo ou tarde, esse descompasso aparece na inflação, no câmbio ou nos juros, e o Banco Central pode apenas administrar esses sintomas, não resolver a causa. Para o seu negócio, a lição é que investir em eficiência, tecnologia e capacidade produtiva deixa de ser diferencial e passa a ser condição para crescer de forma consistente num cenário de juros altos e demanda pressionada.

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