La Serenísima: por que a dona da marca teve prejuízo na Argentina
04/09/2026 04:594 min de leituraAtualizado há 1 hora
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
A dona da tradicional marca argentina de laticínios La Serenísima, a Mastellone, encerrou o primeiro semestre de 2026 no vermelho. A empresa teve prejuízo de 4,791 bilhões de pesos argentinos (R$ 16,2 milhões) e viu seu faturamento cair 6,7% em termos reais. O resultado reflete um cenário conhecido por muitos negócios que dependem do consumo interno: o comprador está mais seletivo e prioriza preço, enquanto os custos de operação seguem subindo.
Ainda que o caso seja de uma empresa argentina, ele serve de alerta para qualquer gestor brasileiro que atua em mercados com consumo retraído: quando a receita cai mais rápido do que os custos conseguem ser reduzidos, o resultado final sofre, mesmo que a empresa continue vendendo. Foi exatamente isso que aconteceu com a Mastellone.
O que aconteceu com as vendas e o lucro
No mercado argentino, a receita da companhia recuou 10,3%, caindo de 807,199 bilhões de pesos (R$ 2,73 bilhões) para 723,996 bilhões de pesos (R$ 2,45 bilhões) na comparação com o mesmo período do ano passado. Já as exportações cresceram 10,5%, passando de 155,893 bilhões de pesos (R$ 528 milhões) para 172,242 bilhões de pesos (R$ 583 milhões). Com isso, a fatia das vendas externas no total da receita da empresa subiu de cerca de 16% para quase 19%.
Mesmo com esse avanço externo, não foi suficiente para segurar o resultado geral. A receita total da Mastellone caiu de 973,850 bilhões de pesos (R$ 3,30 bilhões) para 908,674 bilhões de pesos (R$ 3,08 bilhões). E o problema não parou na receita: os custos das vendas recuaram apenas 4,1%, um ritmo menor que a queda do faturamento. Essa diferença corroeu a margem bruta da empresa, que passou de 25,7% para 23,7%.
Um ponto que chama atenção é o peso da logística nos custos comerciais da empresa: a operação logística consumiu 219,568 bilhões de pesos (R$ 742,8 milhões), um aumento de 2,8%. Depois da matéria-prima, esse item se tornou um dos principais responsáveis pela pressão sobre a rentabilidade da companhia, um lembrete de que, em momentos de queda de vendas, os custos fixos e operacionais pesam ainda mais no resultado final.
Mudança de controle e injeção de capital
O resultado veio em meio a uma reorganização societária importante. Em março, os grupos Arcor e Danone, por meio da Bagley Latinoamérica, concluíram a compra dos 51% da Mastellone que ainda não controlavam, passando a deter 100% da empresa. A operação encerrou uma parceria que havia começado em 2005 e colocou a companhia sob controle conjunto de dois grandes grupos do setor de alimentos, justamente em um momento de consumo interno mais fraco e margens mais apertadas para o setor de lácteos.
Como parte dessa reestruturação, a empresa recebeu recentemente um aporte de US$ 30 milhões (R$ 153,2 milhões) destinado a quitar dívidas bancárias. A operação foi formalizada como uma contribuição vinculada a uma futura emissão de ações e sinaliza que os novos controladores estão organizando as finanças da companhia, com uma estratégia de integrar os negócios da Mastellone com os da Danone Argentina.
Vale notar que o prejuízo do semestre não se distribuiu de forma uniforme. No segundo trimestre isoladamente, a empresa já registrou lucro líquido de 7,405 bilhões de pesos (R$ 25,1 milhões), revertendo o prejuízo do mesmo período do ano anterior. Ou seja, a maior parte do resultado negativo do semestre veio concentrada nos três primeiros meses do ano, o que pode indicar uma melhora ao longo do tempo.
O que explica a queda no consumo
Por trás desses números está uma mudança de comportamento do consumidor argentino. Segundo o Observatório da Cadeia Láctea Argentina, as vendas de lácteos em supermercados caíram 10% em termos reais no primeiro semestre, e o consumo de leite acumula queda de 15% na última década. Mais do que comprar menos, o consumidor está priorizando produtos básicos e mais baratos, deixando de lado itens de maior valor agregado, o que exige das empresas do setor equilíbrio entre manter o volume de vendas e preservar o valor das marcas.
Para negócios que enfrentam cenário parecido, seja no Brasil ou em qualquer mercado com consumo pressionado, o caso da Mastellone mostra um caminho possível: diversificar receitas buscando mercados externos pode ajudar a compensar a fraqueza da demanda interna. A empresa participou recentemente do Santa Fe Business Forum, em Rosário, que reuniu mais de 250 compradores internacionais interessados em fornecedores argentinos, um sinal de que a qualidade e o preço competitivo do leite em pó do país têm despertado interesse global. Ainda que as exportações representem uma fatia menor do negócio, o crescimento nesse período mostra que essa pode ser uma frente estratégica para o setor lácteo diante de um consumo doméstico que segue pressionado.
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