Espaçolaser: por que a empresa teve prejuízo mesmo com melhora operacional
29/09/2026 05:004 min de leituraAtualizado há 47 minutos
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Trabalhista e Folha, atualizado a cada mudança de norma.
Depois de 13 trimestres seguidos melhorando seus resultados, a Espaçolaser (ESPA3) teve um tropeço: entre abril e junho, a empresa registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 134 mil, revertendo um lucro de R$ 8,8 milhões no mesmo período do ano passado. As vendas praticamente empataram com as do ano anterior e a receita líquida ajustada caiu 3,5%. Para quem administra um negócio, o caso é um retrato prático de como juros altos e endividamento das famílias podem afetar até empresas que vinham em trajetória de recuperação.
O que está por trás do resultado
Segundo a CEO Magali Leite, o cenário macroeconômico deste ano ficou mais difícil do que em 2025, especialmente pelo nível de endividamento das famílias e pela inadimplência mais alta no varejo em geral. Isso significa que o cliente final está com menos fôlego financeiro, o que reduz o consumo e aumenta o risco de calote para empresas que vendem a prazo, como é o caso da Espaçolaser, que trabalha com parcelamentos.
A empresa reduziu sua dívida líquida para R$ 526 milhões, uma queda de R$ 21,1 milhões, o que representa 1,88 vez o Ebitda. Mesmo com essa melhora, a Selic em 13,75% obriga a companhia a manter uma gestão de caixa mais rígida, sem abrir mão dos investimentos necessários para continuar crescendo. É um equilíbrio delicado que muitas empresas endividadas enfrentam hoje: cortar custos sem comprometer a operação.
Além da pressão dos juros, as ações da empresa também sofreram com a saída de um acionista relevante. O fundo Magnólia FIP vendeu toda sua participação, equivalente a cerca de 17% do capital social, movimentando R$ 38,7 milhões. Os fundadores Ygor Moura e Paulo Morais seguem no controle da empresa, e o então CFO Fabio Itikawa deixou o cargo em agosto, que passou a ser ocupado interinamente pela própria CEO.
Mudança na forma de cobrar dos clientes
Uma das principais estratégias da empresa para melhorar seu caixa é uma mudança na forma como cobra os clientes. Batizada de CDP ("o cliente decide o pagamento"), a iniciativa dá mais desconto para quem paga em menos parcelas, via cartão de crédito tradicional ou Pix, em vez do parcelamento longo. Até o momento, 480 das 811 lojas no Brasil já adotaram o modelo, e a empresa fechou parceria com o Nupay para ampliar crédito a clientes que já têm cartão Nubank, cerca de 60% da base de consumidores.
Essa estratégia tem três efeitos práticos: melhora a qualidade do recebível e acelera o fluxo de caixa, reduz a inadimplência num momento de juros altos, e diminui a saída de clientes, já que quem paga mais rápido sai satisfeito com o desconto maior. É uma lição que serve para qualquer negócio que trabalha com vendas parceladas: ajustar incentivos financeiros pode reduzir risco sem perder cliente.
Estética como beneficiária do boom dos remédios para emagrecer
Um fator inesperado tem ajudado o setor de estética como um todo: o crescimento no uso de medicamentos para emagrecimento, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro. Segundo a CEO, quem emagrece tende a se preocupar mais com aparência de forma geral, o que aumenta a procura por academias, cuidados com cabelo e procedimentos estéticos, incluindo depilação a laser. Um levantamento da Close-Up International Brasil mostra que esses três medicamentos movimentaram R$ 13,3 bilhões entre maio de 2025 e maio de 2026, e dados da Panorama Setorial Fitness Brasil indicam que o Brasil deve ultrapassar 70 mil academias no próximo ano. Para negócios do setor de beleza e bem-estar, esse é um movimento de mercado que vale acompanhar de perto.
A empresa também tem reajustado preços para acompanhar a inflação, com o ticket médio subindo cerca de 4,5% no trimestre, e ampliado a participação de homens na base de clientes, que já chega a 13,6%. Atualmente a Espaçolaser tem 861 lojas, sendo 811 no Brasil e 50 no exterior, e valor de mercado de R$ 253 milhões, com ações caindo 30% neste ano.
Para empresários e gestores, o caso da Espaçolaser mostra como um cenário de juros altos exige ajustes finos na gestão financeira: repensar prazos de pagamento, priorizar clientes que pagam mais rápido e buscar formas de reduzir a dependência de crédito longo. Ao mesmo tempo, reforça que oportunidades de mercado, como tendências de consumo inesperadas, podem compensar parte da pressão macroeconômica, desde que a empresa consiga captar esse movimento com agilidade.
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