Desertificação no Brasil: o que isso significa para o seu negócio
15/08/2026 12:254 min de leituraAtualizado há 18 dias
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
Se você tem negócio ligado à agropecuária, ao abastecimento de água ou até mesmo a setores urbanos que dependem de matéria-prima do campo, vale prestar atenção a um tema que está ganhando espaço internacional: a desertificação. O Brasil leva o assunto à 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), na Mongólia, entre os dias 17 e 28 de agosto, e o problema já é maior do que muita gente imagina.
Segundo dados apresentados no encontro, cerca de 39 milhões de brasileiros vivem em áreas ameaçadas pela desertificação, entre sertanejos, agricultores, povos indígenas, quilombolas e outras populações tradicionais. O fenômeno atinge aproximadamente 18% do território nacional, uma fatia que não para de crescer.
O que está em jogo
Desertificação não significa necessariamente um deserto no sentido literal, com dunas de areia. O conceito usado por pesquisadores e pela ONU se refere à degradação de terras em regiões secas: um solo que antes era produtivo perde a capacidade de reter água e sustentar plantações, pastagens e vida silvestre. Esse processo é causado por desmatamento, uso inadequado da terra e mudanças climáticas.
No Brasil, o problema está concentrado nos nove estados do Nordeste, mas também avança sobre o norte de Minas Gerais e do Espírito Santo, o nordeste do Rio de Janeiro e o noroeste do Mato Grosso do Sul. Entre 2000 e 2020, a área afetada cresceu de 1,35 milhão para 1,51 milhão de quilômetros quadrados, um aumento equivalente à soma dos territórios de Pernambuco, Paraíba e Alagoas. Em 2023, pesquisadores identificaram até a primeira área de clima árido do país, cerca de 6 mil quilômetros quadrados entre Pernambuco e Bahia.
Por que isso importa para quem está fora do semiárido? Porque a degradação do solo tem efeito cascata: reduz a produção de alimentos, compromete a segurança hídrica e pressiona a economia como um todo, inclusive nas cidades. Empresas de agronegócio, indústrias de alimentos e até setores de logística que dependem de safras regulares sentem esse impacto na ponta, seja em preço, seja em disponibilidade de insumos.
Por que a Caatinga entra nessa conta
A Caatinga concentra os piores índices de deterioração do solo entre os biomas brasileiros: cerca de 11% de sua área, o equivalente a 100 mil quilômetros quadrados, está em situação crítica ou severa, e 42,6% da vegetação nativa já foi suprimida. Mas o bioma também guarda um trunfo pouco conhecido: é um grande armazenador de carbono, com eficiência de 58% no aproveitamento desse carbono, a maior entre os biomas do país, e 72% desse estoque fica no solo, cerca de 125 toneladas por hectare. Um estudo de 2025 mostrou que a Caatinga respondeu por quase metade do sequestro líquido de carbono do Brasil em 2022.
Para quem enxerga oportunidade de negócio em sustentabilidade, crédito de carbono ou recuperação de terras, esse dado importa: pesquisadores querem garantir que a Caatinga seja citada explicitamente nos documentos técnicos da COP17, o que pode influenciar linhas de financiamento e políticas futuras voltadas ao bioma.
O que o governo está fazendo
O Brasil é signatário da convenção da ONU sobre desertificação desde 1997, mas reforçou sua estratégia com o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil 2025-2043), lançado em março de 2026, que integra áreas como meio ambiente, saúde, infraestrutura e acesso à água. Em junho, o Programa Recaatingar estabeleceu a meta de recuperar produtivamente 10 milhões de hectares de terras degradadas da Caatinga em 20 anos, combinando recuperação do solo, produção agropecuária e conhecimento das comunidades locais.
Os resultados já colhidos mostram potencial produtivo real: tecnologias de recuperação da Caatinga resultaram em 36 mil hectares conservados, 2 mil hectares em recuperação ativa e 15 sistemas de agrocaatinga implantados. Sistemas agrossilvipastoris podem quadruplicar a oferta de forragem sem derrubar vegetação, e sistemas agroflorestais elevaram a biomassa em cerca de 85%, reduzindo a erosão do solo. Para negócios rurais, isso sinaliza um caminho concreto de recuperar produtividade em áreas antes consideradas perdidas.
Se sua empresa depende direta ou indiretamente de regiões secas do país, seja como fornecedor, comprador de insumos agrícolas ou prestador de serviços no campo, vale acompanhar esse movimento de perto. Políticas de recuperação de terras, incentivos a práticas sustentáveis e o reconhecimento internacional de biomas como a Caatinga podem abrir linhas de crédito, parcerias e novas exigências de mercado nos próximos anos. Ficar atento a esses sinais agora pode significar antecipar mudanças que impactam diretamente custo, produção e planejamento do seu negócio.
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