Decisão da Suprema Corte Amplia Debate sobre Glifosato e Agricultura Regenerativa nos EUA

No fim de junho, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, por sete votos a dois, que a legislação federal se sobrepõe às normas estaduais sobre advertências nos rótulos do Roundup, herbicida à base de glifosato produzido pela Bayer. Na prática, a decisão dificulta que consumidores americanos processem a empresa nos tribunais estaduais alegando falta de informação sobre riscos à saúde, e fortalece a posição jurídica da companhia em disputas judiciais em curso. Poucas horas depois, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva orientando o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos a reorganizar programas já existentes para incentivar a chamada agricultura regenerativa, sem criar novas linhas de financiamento.
Embora o caso seja americano, ele importa para quem trabalha com agronegócio, exportação de alimentos, distribuição de insumos agrícolas ou qualquer negócio que dependa de relações comerciais com os Estados Unidos. A combinação das duas decisões, uma judicial e outra política, reacendeu um debate que estava relativamente estável: até onde vai o respaldo regulatório ao glifosato enquanto o governo americano tenta, ao mesmo tempo, ampliar sistemas de produção que reduzem o uso de defensivos sintéticos.
O que muda
A decisão da Suprema Corte não altera as regras de uso do glifosato nos Estados Unidos, mas muda o cenário jurídico para a Bayer, tornando mais difícil que ações estaduais prosperem contra a empresa com base em supostas falhas de rotulagem. Já a ordem executiva não cria dinheiro novo para a agricultura regenerativa: ela apenas redireciona recursos de programas já existentes do USDA. É justamente essa combinação, manter o glifosato liberado e, ao mesmo tempo, sinalizar apoio a sistemas regenerativos, que gerou críticas dentro do próprio movimento que apoia o governo Trump na área de saúde e alimentação, o MAHA (Make America Healthy Again).
Um ponto central da discussão é que não existe, nos Estados Unidos, uma definição regulatória única para agricultura regenerativa, diferente do que ocorre com a produção orgânica certificada pelo USDA, que tem critérios específicos e restringe o uso de herbicidas sintéticos. Essa lacuna permite que diferentes programas, marcas e certificadoras adotem parâmetros distintos para dizer o que é ou não regenerativo, o que também pode confundir compradores e fornecedores que negociam produtos com esse selo.
Quem é afetado
O impacto direto recai sobre a Bayer e sobre usuários americanos do Roundup envolvidos em processos judiciais. Mas há efeitos indiretos relevantes para empresas brasileiras: produtores e exportadores que vendem para os Estados Unidos podem sentir, no médio prazo, exigências diferentes de compradores americanos quanto a práticas de cultivo e uso de defensivos, especialmente se marcas e redes de varejo decidirem reforçar exigências ligadas à agricultura regenerativa como diferencial de mercado. Distribuidores e fabricantes de defensivos agrícolas também devem observar como esse debate evolui, já que a divergência entre agências regulatórias pode influenciar decisões de compra e políticas internas de empresas multinacionais que atuam também no Brasil.
A própria divergência científica alimenta essa incerteza. A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, ligada à Organização Mundial da Saúde, classificou o glifosato em 2015 como “provavelmente carcinogênico para humanos”. Já a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos mantém o entendimento de que o produto pode ser usado com segurança quando aplicado conforme o rótulo, e reforça que ele segue relevante para práticas de plantio direto e conservação do solo. No Brasil, o glifosato também segue autorizado, mas o histórico de debates regulatórios internacionais tende a repercutir aqui, inclusive em discussões sobre exigências de compradores estrangeiros.
| Fato | Detalhe |
|---|---|
| Decisão da Suprema Corte | 7 votos a 2, favorável à prevalência da lei federal sobre normas estaduais |
| Ordem executiva de Trump | Reorganiza programas existentes do USDA, sem novo financiamento |
| Classificação da IARC (2015) | Glifosato como "provavelmente carcinogênico para humanos" |
| Posição da EPA | Uso seguro quando seguidas as instruções de rótulo |
| Área tratada nos EUA | 121 milhões de hectares recebem glifosato anualmente |
Como se preparar
Se o seu negócio exporta para os Estados Unidos, negocia com redes de varejo americanas ou trabalha com certificações ligadas a práticas sustentáveis, vale acompanhar como esse debate evolui nos próximos meses, especialmente as decisões do USDA sobre os programas reorganizados pela ordem executiva
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