A Inteligência Artificial Está Aumentando a Inflação, e Não Reduzindo, Diz Janet Yellen
A inteligência artificial é vendida há anos como uma tecnologia capaz de baratear processos, aumentar a produtividade e, no limite, ajudar a controlar a inflação. Mas a economista Janet Yellen, ex-secretária do Tesouro dos Estados Unidos e ex-presidente do Federal Reserve, tem uma leitura diferente sobre o momento atual. Em entrevista à Forbes Brasil durante o XP Expert, ela disse que, por enquanto, o efeito prático da corrida pela IA tem sido o contrário do esperado: mais pressão sobre os preços, não menos.
Segundo Yellen, o motivo é simples. Para sustentar a expansão da inteligência artificial, empresas de tecnologia estão investindo pesado em data centers, capacidade computacional e infraestrutura de energia. Essa corrida aumenta a demanda por semicondutores e eletricidade, dois insumos que estão na base de praticamente qualquer equipamento eletrônico vendido hoje, do computador ao celular. O resultado é um efeito em cadeia: o custo desses componentes sobe e acaba se espalhando por diferentes setores da economia.
O que isso significa na prática
Para você que administra uma empresa, esse cenário importa porque toca diretamente em três frentes: custo de energia, custo de equipamentos de tecnologia e o ambiente de juros. Se a demanda por eletricidade e chips continua aquecida globalmente, é natural esperar que insumos ligados a tecnologia, de servidores a dispositivos com componentes eletrônicos, sigam mais caros por mais tempo do que muitos previam. Isso afeta principalmente negócios que dependem de renovação de parque tecnológico, expansão de infraestrutura digital ou uso intensivo de equipamentos eletrônicos na operação.
Yellen também chama atenção para outro canal menos óbvio: a valorização das ações de empresas de tecnologia nas bolsas americanas gerou um efeito riqueza sobre as famílias, que passaram a consumir mais. Esse consumo aquecido ajuda a manter a demanda em alta justamente num momento em que o Federal Reserve ainda tenta trazer a inflação para a meta. Para empresas brasileiras, isso é relevante porque juros mais altos ou mais persistentes nos Estados Unidos costumam se refletir no custo de crédito, no câmbio e nas condições de financiamento aqui dentro.
Um ganho de produtividade que ainda não chegou
A economista é clara ao dizer que, até o momento, os benefícios da IA em termos de produtividade ainda não aparecem nos indicadores agregados da economia americana. Alguns setores mais expostos à tecnologia já sentem o impacto, inclusive nas decisões de contratação, mas o efeito geral ainda não se traduziu em mais eficiência para a economia como um todo. Segundo ela, isso é normal: revoluções tecnológicas costumam levar anos para gerar ganhos reais, porque exigem que as empresas reorganizem processos internos para aproveitar de fato a nova tecnologia.
Isso é um recado direto para quem está investindo em IA no próprio negócio esperando retorno imediato em produtividade. A promessa pode se concretizar, mas o histórico de outras transformações tecnológicas sugere que o retorno tende a vir depois de um período de adaptação organizacional, não de forma automática assim que a ferramenta é adotada.
Como se preparar
Diante desse cenário, vale planejar o orçamento considerando que custos ligados a energia e tecnologia podem continuar pressionados no curto prazo, sem esperar alívio imediato vindo da própria IA. Reveja contratos de fornecimento de equipamentos, negocie prazos de renovação tecnológica com atenção ao câmbio e mantenha uma reserva de caixa para absorver oscilações de custo em insumos importados. Se sua empresa já investe em automação ou inteligência artificial, é prudente medir os ganhos de forma realista e de médio prazo, em vez de projetar retorno rápido sobre o investimento.
Yellen não descarta que a IA se torne, no futuro, uma força que ajude a baixar a inflação e até alivie parte da pressão fiscal dos Estados Unidos, caso os ganhos de produtividade se espalhem pela economia. Mas ela é direta ao dizer que isso ainda é incerto. Para o empresário brasileiro, a lição prática é acompanhar de perto os custos de energia e tecnologia nos próximos meses, sem contar com uma folga inflacionária vinda da IA antes que ela realmente se comprove nos números.
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