Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
Se o seu negócio depende de farinha de trigo, seja padaria, indústria de massas, biscoitos ou panificação em geral, um novo dado da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) merece atenção. A estatal estima que o Brasil vai importar 7,1 milhões de toneladas de trigo na safra 2026/27, que começou neste mês. É um salto de mais de 20% em relação ao ciclo anterior e o maior volume de importação em quase duas décadas. O motivo é simples: a produção brasileira de trigo despencou, e o país vai precisar comprar muito mais grão fora para não faltar matéria-prima no mercado interno.
O que muda
A Conab reduziu novamente sua previsão para a safra brasileira de trigo de 2026, que agora deve ficar em 5,8 milhões de toneladas, uma queda expressiva puxada pela retração de 20,4% na área plantada. Produtores do Rio Grande do Sul e do Paraná, que concentram a produção nacional, plantaram menos trigo diante do risco de um El Niño forte, fenômeno que costuma trazer chuvas em excesso e prejudicar a qualidade e a produtividade da lavoura. Com menos trigo nascendo em solo brasileiro, a conta sobra para as importações, que devem se tornar ainda mais essenciais para abastecer moinhos e indústrias.
A Argentina segue como a principal fornecedora do Brasil, e a expectativa é que o país volte a ganhar espaço nas compras a partir de dezembro, quando chega o trigo da nova safra argentina. Isso acontece porque, no primeiro semestre deste ano, os moinhos brasileiros reclamaram da qualidade do grão argentino e reduziram as compras: as importações totais caíram de 3,6 milhões de toneladas (mesmo período do ano passado) para 2,8 milhões de toneladas, com a Argentina respondendo por boa parte dessa queda, indo de mais de 2 milhões para cerca de 2 milhões de toneladas.
Quem é afetado
Para cobrir o buraco no segundo semestre, antes da chegada da nova safra argentina, a Rússia surge como alternativa importante. O país, maior exportador mundial de trigo, já enviou 170 mil toneladas ao Brasil no primeiro semestre deste ano, volume que não existia em 2025. Ainda assim, o trigo russo custa mais caro que o argentino: em média, R$ 1.591 por tonelada (posto no Brasil) contra R$ 1.463 do produto argentino. Mesmo assim, ambos ficam bem abaixo do trigo americano, que varia entre R$ 1.809 e R$ 2.048 por tonelada, dependendo do tipo.
A dependência de origens mais distantes também traz complicações logísticas. Segundo um analista de mercado, a Rússia enfrenta dificuldades para escoar o trigo pelo Mar Negro por causa de ataques da Ucrânia na região, o que a obriga a usar rotas alternativas, como o Mar Báltico. Mesmo com esse entrave, o produto russo tem se mostrado competitivo, principalmente para o Nordeste brasileiro, região que não impõe restrições fitossanitárias como as existentes em São Paulo e no Sul do país.
Como se preparar
Para quem compra farinha ou trigo em grão como insumo, o cenário pede atenção redobrada aos próximos meses. A expectativa de mercado é que a nova safra argentina, que chega no fim do ano, venha com qualidade melhor, próxima do padrão panificável observado antes da última colheita. Até lá, porém, o segundo semestre deve ser marcado por incerteza, com necessidade de misturar grãos de menor qualidade a produtos superiores, ou recorrer a importações mais caras de outras origens.
Na prática, isso significa que negócios que dependem de trigo devem monitorar de perto a evolução dos preços e, se possível, negociar contratos e estoques com antecedência, evitando ficar refém de compras emergenciais em um momento de maior aperto na oferta. Se a projeção da Conab se confirmar, o Brasil vai registrar a maior importação de trigo desde 2006/07, um sinal claro de que o mercado interno seguirá pressionado por, pelo menos, os próximos meses.
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