Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
Você já deve ter notado: cada vez mais empresas preferem contratar terceirizados, freelancers ou profissionais sem plano de carreira claro, em vez de montar equipes fixas e engajadas. Essa não é uma percepção isolada. Segundo pesquisa do professor Paul Osterman, do MIT, 35% da força de trabalho hoje já se enquadra nessa categoria, que ele chama de "profissionais descartáveis". E o alerta é direto: a inteligência artificial não criou esse fenômeno, mas vai acelerá-lo.
Para quem administra um negócio, entender essa tendência é essencial, porque ela não é apenas uma discussão acadêmica sobre o futuro do trabalho. Ela já está moldando decisões de contratação, benefícios e estrutura de equipe em empresas de todos os portes, inclusive fora do Brasil, e tende a chegar com força ao seu setor.
O que muda
A lógica é simples: empresas estão concentrando investimento e compromisso em uma parcela pequena de profissionais, considerados estratégicos, e tratando o restante da equipe como peça substituível. Um relatório da consultoria McKinsey, citado no estudo, mostra que apenas 5% dos talentos de uma organização geram 95% do valor gerado por ela. Esse dado tem sido usado para justificar cortes de benefícios e menor investimento em quem não está nesse grupo central.
Um exemplo prático veio da Deloitte, que no início deste ano reduziu licenças-maternidade e paternidade, além de auxílios familiares, para profissionais de áreas de suporte, como administrativo, TI e financeiro. Os benefícios de longo prazo foram mantidos apenas para cargos considerados estratégicos. É exatamente esse tipo de função de suporte, mais operacional e repetitiva, que está mais exposta à automação pela IA.
Quem é afetado
Segundo Osterman, os "profissionais descartáveis" se dividem em três grupos: terceirizados, freelancers e profissionais contratados formalmente, mas sem qualquer perspectiva real de crescimento dentro da empresa. Ele cita como exemplo professores substitutos e advogados associados que fazem o trabalho pesado, mas nunca chegam a posições de sócio ou efetivação plena.
O impacto mais imediato recai sobre quem está começando a carreira. Isso porque é muito mais fácil para uma empresa reduzir a contratação de talentos juniores do que demitir quem já está estabelecido no quadro. Além disso, o professor chama atenção para um custo invisível: a precarização do trabalho afeta o engajamento e o clima organizacional até de quem permanece efetivo, gerando insegurança generalizada dentro da empresa.
Vale destacar que, segundo Osterman, o problema não é a extinção geral de vagas, mas a mudança na proporção entre funcionários regulares e descartáveis dentro das empresas. Com a incerteza sobre quais habilidades serão realmente necessárias no futuro, torna-se financeiramente mais vantajoso para as empresas manter contratos flexíveis, evitando custos fixos com planos de saúde e outros benefícios de longo prazo.
Como se preparar
Para os profissionais que buscam segurança nesse cenário, Osterman recomenda dois caminhos: investir continuamente no aprimoramento de habilidades difíceis de substituir, o que garante poder de negociação mesmo diante da necessidade de trocar de empresa com frequência, e construir uma rede de contatos externa à empresa atual, para não depender de um único empregador na hora de buscar novas oportunidades.
Já para trabalhos operacionais e de menor salário, o professor é claro ao afirmar que o esforço individual não é suficiente. Segundo ele, essa é, no limite, uma questão de política pública, que exige programas eficazes de qualificação profissional, salários mínimos justos e um compromisso das empresas em elevar o piso do mercado de trabalho como um todo.
Para quem gere um negócio, o recado prático é pensar com cuidado antes de simplesmente enxugar equipes de suporte via IA ou terceirização. Além do risco reputacional, a precarização tem custo real em engajamento, retenção e clima organizacional, fatores que impactam diretamente a produtividade e a qualidade do serviço entregue ao cliente.
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