Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Trabalhista e Folha, atualizado a cada mudança de norma.
Se você lidera uma empresa, é bem provável que algum funcionário já tenha colado um contrato, uma planilha de clientes ou um relatório financeiro em uma ferramenta de inteligência artificial que a empresa nunca autorizou. Uma pesquisa da SAP em parceria com a Oxford Economics mostra que isso acontece, pelo menos ocasionalmente, em 82% das empresas brasileiras. O fenômeno já tem nome: shadow AI, ou seja, o uso de IA "por fora", sem aprovação nem supervisão do negócio.
O problema não é hipotético. Entre as empresas ouvidas na pesquisa, 43% relataram vazamento de dados ou exposição de informações estratégicas relacionados a esse uso descontrolado de IA. Outras 32% identificaram vulnerabilidades de segurança, e 31% apontaram violações de regras de compliance. O levantamento ouviu 2.600 líderes empresariais em 13 países, sendo 200 no Brasil.
Por que isso acontece
A explicação é simples: a IA generativa entrou nas empresas pela porta dos fundos, no navegador de cada funcionário, sem passar pelo controle de tecnologia. Segundo Loyanna Menezes, CEO do escritório Abi-Ackel Advogados, as empresas construíram seus mecanismos de controle em cima de coisas que conseguem enxergar, como servidores, licenças e senhas de acesso. A IA usada diretamente no navegador simplesmente não aparece nesse radar.
Na prática, isso significa que a adoção de IA avançou como um hábito individual, conforme a conveniência de cada funcionário, enquanto a estrutura de regras da empresa ficou para trás. A pesquisa da SAP reforça esse descompasso: a IA já apoia 26% das tarefas realizadas nas empresas brasileiras, mas apenas 18% delas adotam a tecnologia de forma integrada e organizada. O modelo mais comum ainda é implementar IA projeto a projeto, sem uma visão de conjunto, citado por 48% dos participantes.
Rui Botelho, CEO da SAP Brasil, observa que o uso de ferramentas não autorizadas já era conhecido, mas agora as consequências ficaram mais visíveis para quem toma decisões dentro das empresas.
Quanto isso pode custar ao seu negócio
O custo médio de uma violação de dados no Brasil chegou a R$ 7,19 milhões em 2025, segundo levantamento da IBM, considerando gastos com identificação e contenção do problema, paralisação de atividades, recuperação de sistemas, perda de negócios e resposta aos clientes afetados. Em nível global, a mesma pesquisa da IBM mostrou que empresas com uso elevado de shadow AI tiveram custos de vazamento US$ 670 mil superiores, em média, aos das empresas com pouco ou nenhum uso não autorizado de IA.
Designe formalmente quem vai cuidar da governança de IA na empresa.
Estabeleça quais ferramentas podem ser usadas e quais informações nunca devem ser inseridas nelas.
Disponibilize uma conta corporativa ou ambiente fechado, com contrato que garanta controle sobre os dados.
Explique os riscos e as consequências, já que proibir sozinho não resolve o comportamento.
Além dos custos que aparecem na conta, como investigação do incidente, contratação de especialistas, retrabalho e notificação de pessoas afetadas, existem prejuízos menos visíveis: perda de confiança dos clientes, exposição de informações comerciais e enfraquecimento de vantagens competitivas. Segundo Loyanna, quando um dado sensível é inserido em um modelo de IA público, ele passa a ser tratado por uma estrutura que a empresa não contratou nem auditou, sem qualquer garantia jurídica de recuperação. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados ainda permite que a Autoridade Nacional de Proteção de Dados aplique multa de até 2% do faturamento da empresa, limitada a R$ 50 milhões por infração.
Setores que lidam diretamente com informações confidenciais, como bancos, hospitais, consultorias e escritórios de advocacia, correm um risco ainda maior, já que o vazamento pode comprometer o próprio serviço prestado ao cliente. Ricardo Calcini, sócio-fundador do Calcini Advogados e professor do Insper, destaca que a natureza do problema mudou: antes, vazamentos eram associados a invasões ou ações clandestinas; hoje, muitas vezes nascem de uma tarefa rotineira feita por um funcionário em busca de produtividade, dentro do próprio ambiente da empresa.
O risco trabalhista que poucos conhecem
Um ponto que merece atenção especial de gestores é o impacto na relação com os funcionários. O artigo 482 da CLT permite demissão por justa causa em casos de violação de segredo da empresa, entre outras situações. Segundo Calcini, se um funcionário usa um relatório confidencial em uma IA que não é fechada, isso pode, sim, configurar justa causa, mesmo sem intenção de prejudicar a empresa. A Justiça do Trabalho de São Paulo já manteve, em 2025, a justa causa de uma funcionária que enviou por engano uma planilha com dados sigilosos a um cliente, mostrando que a falta de intenção não afasta a gravidade do episódio.
Para o gestor, o recado é prático: bloquear o acesso a ferramentas de IA, isoladamente, não resolve o problema. Uma pesquisa da Cisco mostrou que 27% das organizações já haviam proibido temporariamente o uso de IA generativa, mas 48% dos participantes admitiram ter inserido informações não públicas da empresa nessas mesmas ferramentas. Isso mostra que a solução passa por política interna, treinam
Aviso: conteúdo informativo, produzido a partir de fontes públicas e reescrito pela nossa editoria. Não substitui orientação contábil ou fiscal personalizada. Tem uma dúvida sobre o assunto? Pergunte no portal.
