Reciprocidade contra tarifas dos EUA: o que sua empresa precisa saber
14/08/2026 10:304 min de leituraAtualizado há 17 dias
Fonte: Contábeis · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
O governo brasileiro deu início a um processo formal para avaliar se vai aplicar medidas de resposta às tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Isso não significa que haverá retaliação imediata: trata-se do começo de uma análise, prevista em lei, que pode levar tempo e passar por várias etapas antes de qualquer decisão concreta. Se você exporta, importa ou depende de insumos vindos dos EUA, vale entender como esse processo funciona e o que pode mudar no seu negócio nos próximos meses.
O que está acontecendo
Tudo começou em julho, quando os Estados Unidos anunciaram duas tarifas sobre produtos brasileiros: uma de 25%, com justificativa ligada a práticas comerciais consideradas injustas pelo governo americano (incluindo temas como Pix, combate à corrupção, desmatamento e propriedade intelectual), e outra de 12,5%, associada a alegações sobre combate ao trabalho forçado. O governo brasileiro considerou as medidas arbitrárias e injustificadas e decidiu reagir por dois caminhos ao mesmo tempo: um pedido de consultas na Organização Mundial do Comércio (OMC) e a abertura do processo interno baseado na Lei da Reciprocidade Econômica, sancionada em 2025.
Essa lei permite que o Brasil responda a tarifas ou restrições impostas unilateralmente por outros países, seja com tarifas próprias sobre produtos importados, seja suspendendo obrigações relacionadas a acordos comerciais, incluindo propriedade intelectual. Mas a norma também determina que qualquer contramedida precisa levar em conta o impacto sobre a economia brasileira, evitando prejudicar cadeias produtivas que dependem de insumos importados.
Como funciona o processo por dentro
Existem dois tipos de resposta previstos: medidas provisórias, que podem ser adotadas rapidamente em situações excepcionais, e medidas ordinárias, que seguem um rito mais longo. No caso atual, o processo aberto segue o caminho ordinário: um pedido é analisado pelo Comitê-Executivo de Gestão da Camex, que pode aprovar a formação de um grupo de trabalho para propor contramedidas. Essa proposta, antes de virar decisão, passa por consulta pública de até 30 dias, período em que empresas e setores afetados podem se manifestar.
Camex recebe e compartilha a solicitação com seu Comitê-Executivo de Gestão.
Itamaraty notifica os EUA e solicita consultas diplomáticas.
Se aprovado, um grupo elabora proposta de contramedidas.
Proposta fica aberta por até 30 dias para manifestação de interessados.
Conselho Estratégico da Camex decide se aplica, adia ou descarta as medidas.
Depois da consulta pública, a proposta volta para a Secretaria-Executiva da Camex, que a encaminha ao Comitê-Executivo. A palavra final, porém, é do Conselho Estratégico da Camex, que também pode optar por adiar tudo se as negociações diplomáticas avançarem antes disso. Ou seja: mesmo que o processo chegue à etapa final, não há garantia de que contramedidas serão de fato aplicadas.
O que muda para quem exporta ou importa
Por enquanto, nada muda na prática para empresas americanas que vendem ou compram do Brasil: não há tarifa nova em vigor, nem restrição imediata. O que existe é uma análise formal para verificar se as medidas dos EUA se enquadram nas situações previstas pela lei brasileira, avaliando quais setores nacionais foram afetados e qual o tamanho do impacto econômico. Enquanto isso, o Ministério das Relações Exteriores segue conduzindo consultas diplomáticas junto ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, com o objetivo declarado de reduzir ou eliminar os efeitos das tarifas por meio de negociação, sem necessariamente chegar a uma retaliação.
Para empresas brasileiras que exportam para os Estados Unidos, especialmente nos setores atingidos pelas tarifas de 25% e 12,5%, o cenário segue de acompanhamento: qualquer avanço nas negociações ou no processo de reciprocidade pode alterar custos, prazos e condições de comércio. Já para quem importa insumos ou produtos americanos, o alerta é outro: se o processo avançar até a fase de contramedidas, é possível que produtos dos EUA passem a ter tarifas adicionais no Brasil, o que impactaria diretamente o custo de matérias-primas ou mercadorias vindas de lá.
Como se preparar
Mesmo sem decisão definitiva, é prudente que empresas com operações ligadas aos Estados Unidos, seja na exportação, seja na importação, mapeiem sua exposição a esse cenário. Isso inclui identificar quais produtos ou insumos usados no seu negócio vêm dos EUA e quais linhas de exportação podem ser afetadas pelas tarifas já aplicadas. Acompanhar a evolução das consultas diplomáticas e da eventual consulta pública também é importante, já que esse é o momento em que empresas e setores afetados podem se manifestar formalmente sobre propostas de contramedidas antes que elas se tornem definitivas.
O processo pode se estender por meses, já que envolve várias instâncias e a possibilidade de adiamento conforme as negociações diplomáticas avançam. Por isso, o mais indicado agora é manter-se informado sobre os desdobramentos
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