Quem é Sheikha Al Mayassa e como ela transformou cultura em poder no Catar
22/09/2026 05:324 min de leituraAtualizado há 3 horas
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
Você já parou para pensar em quanto investimento em cultura pode virar estratégia de negócio e de posicionamento internacional? É exatamente esse o caso de Sheikha Al Mayassa bint Hamad bin Khalifa Al Thani, filha do ex-emir do Catar e irmã do atual chefe de Estado, que há mais de duas décadas lidera a transformação cultural do país. Em entrevista à Forbes Brasil, durante visita ao Brasil, ela contou como museus, cinema e artes viraram parte central da forma como o Catar se relaciona com o mundo.
Uma trajetória que começou na diplomacia
Al Mayassa entrou na universidade com um objetivo diferente do que acabou realizando: queria ser a primeira mulher a ocupar o cargo de ministra das Relações Exteriores do Catar. Formada em ciência política e literatura, ela se viu diante de uma virada de rota quando o pai a colocou à frente do projeto do Museu de Arte Islâmica, que enfrentava dificuldades internas. Sem formação técnica para tocar um projeto desse porte, ela decidiu voltar a Nova York e cursar mestrado na Columbia University, com foco em política e planejamento urbano, para entender como instituições culturais impactam cidades e sociedades além do prédio em si.
Esse caminho ajuda a explicar por que, para ela, cultura e política nunca estiveram separadas. Segundo Al Mayassa, a cultura funciona como uma extensão da diplomacia, mas com uma vantagem prática: ela derruba hierarquias. Uma conversa cultural, diz ela, pode reunir pessoas de diferentes origens, classes sociais e idades em pé de igualdade, algo que a política tradicional nem sempre consegue.
Museus, cinema e um projeto de longo prazo
Sob a liderança dela, Doha ganhou museus assinados por arquitetos renomados como I. M. Pei e Jean Nouvel, ampliou coleções e criou uma estrutura de incentivo que vai das artes plásticas ao cinema, moda e design. Um dos projetos citados por ela é o Instituto de Cinema, criado há 16 anos, com o objetivo de apoiar cineastas do mundo árabe, Sudeste Asiático, África e do Sul Global, regiões onde muitas vezes não existe uma indústria cinematográfica estruturada. A lógica por trás da iniciativa é simples: permitir que essas regiões contem suas próprias histórias, com suas próprias vozes, em vez de depender de narrativas produzidas por quem nunca viveu ali.
Um ponto que ela faz questão de destacar é a origem do investimento cultural do Catar: segundo Al Mayassa, ele não nasceu para criar uma nova imagem do país ou atrair turistas, mas como parte de um projeto de desenvolvimento humano e de construção de uma sociedade baseada no conhecimento. É uma diferença importante para quem pensa em cultura apenas como ferramenta de marketing ou turismo, já que, no caso do Catar, a lógica declarada é outra: formar pessoas e capacidades ao longo de gerações.
Durante a passagem pelo Brasil, a sheikha esteve a convite do empresário francês Alex Allard, criador do Mata São Paulo, com quem articula um projeto semelhante em Doha, batizado de Al Maha. Ela também aproveitou a viagem para conhecer lideranças criativas brasileiras e visitou o instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), um dos maiores centros de arte contemporânea a céu aberto do mundo.
Outro projeto mencionado por ela é o Museu de Lusail, que reúne uma das maiores coleções de pinturas orientalistas do mundo. Para Al Mayassa, essas obras abrem um debate importante sobre como a região árabe é retratada pelo olhar ocidental e como ela própria se reconcilia com um passado marcado por conflitos pós-coloniais, resultado da forma como países foram divididos e famílias, separadas.
Ao olhar para trás, ela reforça que nunca imaginou que o trabalho começado há 20 anos chegaria a esse tamanho. Segundo ela, tudo começou como uma responsabilidade recebida do pai, não como uma ambição pessoal, e o resultado hoje é fruto de uma visão de longo prazo que agora entra em nova fase, com o planejamento da chamada Visão 2050.
Para quem lidera empresas e organizações, a trajetória de Al Mayassa deixa uma lição prática: investimento consistente e de longo prazo em pessoas e em capacidades locais pode gerar resultados que vão muito além do retorno imediato, moldando inclusive a forma como um país, ou uma marca, é percebido no mundo.
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