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Por que produtores de cannabis tentam virar data centers de IA

22/10/2026 04:595 min de leituraAtualizado há 2 horas

Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.

Um negócio que parecia promissor virou dor de cabeça para muitos produtores de cannabis na América do Norte. Com o preço da maconha despencando e a carga tributária consumindo boa parte da receita, donos de instalações de cultivo passaram a enxergar uma saída possível: vender ou reconverter seus galpões para abrigar data centers de inteligência artificial, setor que hoje tem dinheiro sobrando para investir em infraestrutura. A ideia parece lógica no papel, mas a prática tem se mostrado muito mais complicada.

O caso mais emblemático é o de Michael Ward, dono da Harbor Farmz, instalação de cultivo em Kalamazoo, Michigan (EUA). Ele investiu US$ 20 milhões na construção, em 2020, quando a libra de maconha valia cerca de US$ 2.500. Hoje, esse mesmo volume vende por apenas US$ 700, e o estado ainda aplica um imposto de 24% sobre vendas no atacado. Segundo Ward, os impostos consomem cerca de 75% da receita da empresa, e o faturamento caiu de US$ 6,5 milhões para uma projeção de US$ 3 milhões neste ano. Ele já abriu mão de duas das três licenças de cultivo que tinha e reduziu a operação de 7.500 para cerca de 2.000 plantas.

Por que a cannabis olha para os data centers

A lógica por trás da conversão é simples: muitas instalações de cultivo já têm infraestrutura elétrica robusta, cabeamento de fibra óptica e sistemas de climatização de última geração, itens que também interessam a pequenos desenvolvedores de data centers. No caso da Harbor Farmz, a estrutura elétrica atual suporta 1,5 megawatt, com potencial de chegar a 2,5 megawatts em até 12 meses e 15 megawatts no longo prazo. Ward calculou que, se conseguisse vender a propriedade para esse fim, recuperaria o investimento original e ainda poderia continuar no negócio da cannabis, comprando o produto no atacado por um preço menor do que seu próprio custo de produção.

Ele chegou a apresentar o plano à Câmara Municipal, argumentando que a transformação em data center geraria US$ 1 milhão em receita tributária anual para a cidade, bem mais que os US$ 60 mil pagos atualmente. A proposta avançou a ponto de Kalamazoo conceder autorização de zoneamento em abril. Mas, quando o imóvel foi anunciado publicamente como possível data center, em junho, a reação dos moradores foi imediata e hostil, com campanhas em redes sociais pedindo boicote e manifestações contra o projeto.

O caso Harbor Farmz em números
US$ 20 milhõesinvestimento originalvalor gasto na construção da instalação em 2020.
75%da receita vai para impostossegundo estimativa do proprietário Michael Ward.
US$ 700preço atual da libra de maconhaante US$ 2.500 em 2020, queda que pressiona o setor.

Resistência local trava os planos

Em agosto, durante uma reunião da Câmara Municipal que durou cinco horas, moradores rejeitaram a proposta citando riscos como poluição sonora, aumento nas contas de luz, sobrecarga da rede elétrica e consumo excessivo de água. O resultado foi o oposto do que Ward esperava: em vez de uma liberação especial, a cidade aprovou uma moratória que bloqueia qualquer novo data center até agosto de 2027, incluindo a própria Harbor Farmz, mesmo já tendo autorização de zoneamento. Ward retirou o anúncio de venda em setembro e hoje afirma estar sem alternativas reais para sair da situação.

Esse tipo de barreira não é exclusivo de Michigan. Em Nova York, uma moratória contra data centers já elimina boa parte do mercado potencial para quem tenta vender instalações de cannabis com esse propósito, segundo Daniel Tropp, corretor especializado em imóveis comerciais para o setor. Ele afirma que o interesse existe, inclusive em propriedades de Nova Jersey, mas poucos negócios realmente avançam. Na visão dele, a ideia de reconverter galpões de cultivo em data centers tornou-se uma espécie de fantasia comum entre vendedores que não conseguem encontrar comprador para o imóvel.

O que diferencia os negócios que avançam

Especialistas do setor imobiliário de data centers apontam que existe sim espaço para instalações menores, principalmente para os chamados data centers de inferência, estruturas regionais bem menores do que as megainstalações usadas para treinar modelos de IA. Jeffrey Moerdler, advogado que atua com infraestrutura digital, afirma que vê uma demanda crescente por projetos entre 10 e 50 megawatts, faixa em que instalações de cannabis poderiam, em tese, se encaixar. Mas ele reconhece que isso está longe de ser automático.

Um exemplo é o caso de uma instalação da empresa Jade, em Las Vegas, anunciada como possível local para data center, com 929 metros quadrados e potencial de 5 megawatts de energia. O corretor responsável pelo anúncio alerta que esse potencial elétrico não deve ser considerado garantido, já que as companhias de energia podem retirar a capacidade disponível se ela não estiver sendo usada ativamente. Na prática, segundo quem acompanha esse mercado de perto, a distância entre uma instalação média de cultivo de cannabis e um data center pronto para operar ainda é grande, e a maioria dos anúncios desse tipo funciona mais como tentativa de agregar valor a um ativo difícil de vender do que como negócio com real chance de se concretizar.

Para empresários e gestores que acompanham setores em transformação, o episódio serve de alerta prático: identificar uma oportunidade de mercado é só o primeiro passo. Questões de zoneamento, aceitação da comunidade local, disponibilidade real de energia e burocracia municipal podem travar projetos mesmo quando a lógica financeira parece favorável. Antes de apostar em uma reconversão de negócio baseada em tendência de mercado, vale mapear com cuidado as barreiras regulatórias e sociais da região onde a operação está instalada.

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