Por que os brasileiros estão comprando barcos cada vez maiores
01/10/2026 05:005 min de leituraAtualizado há 3 horas
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
Se você acompanha o setor náutico ou pensa em investir numa embarcação, um movimento recente vale sua atenção: o brasileiro está comprando barcos cada vez maiores. Não é só impressão de quem vende. Os números da frota nacional e os lançamentos apresentados no São Paulo Boat Show, que terminou na última terça-feira (29), confirmam essa tendência e mostram que os estaleiros já reformularam seus projetos para atender a esse novo perfil de comprador.
O que mudou no mercado
Entre 2020 e 2023, o Brasil saltou de cerca de 560 mil para mais de 641 mil embarcações de esporte e recreio com registro válido na Marinha, um crescimento de 14,4% em apenas três anos. Dentro desse universo, porém, há uma mudança de comportamento mais específica: os modelos menores perdem força, enquanto os maiores continuam vendendo bem. É o que observa Márcio Schaefer, CEO da Schaefer Yachts, que resume a situação dizendo que "os barcos grandes estão fortes". Na prática, isso significa que, mesmo entregando menos unidades (86 no ano passado contra uma previsão pouco acima de 70 em 2026), a empresa está faturando mais, porque os barcos produzidos são maiores e mais caros.
Essa lógica também apareceu na estrutura do próprio evento. A edição 2026 reuniu mais de 160 embarcações e acima de 30 lançamentos, com mais de 40 modelos na faixa entre 30 e 40 pés, o equivalente a cerca de 30% do total exposto. Entre os destaques estavam iates como a Intermarine 25M, de 25,15 metros, com flybridge de 50 m², jacuzzi e capacidade para 26 pessoas, e a Schaefer 660, de 20,08 metros, com quatro camarotes e plataforma submergível. O ponto em comum entre esses lançamentos não é apenas o tamanho: é a quantidade de espaço dedicado a reunir gente a bordo.
Quem está sendo afetado por essa mudança
Se você é dono de estaleiro, revendedor ou fornecedor da cadeia náutica, esse movimento já está mudando o tipo de produto que o mercado espera. Os projetos deixaram de priorizar apenas corredores de circulação e passaram a transformar esses espaços em áreas de convivência, refeição e lazer. A Azimut Fly 58, fabricada em Itajaí (SC), é um exemplo direto: a empresa integrou a cozinha à praça de popa especificamente para atender o comportamento do público brasileiro, que usa o barco de forma social, reunindo família e amigos e circulando bastante entre o convés e a água.
Segundo Schaefer, não adianta importar um projeto europeu pronto e aplicá-lo sem ajustes: luminosidade, resistência dos revestimentos e distribuição das áreas sociais precisam ser pensadas para o uso real que o brasileiro faz da embarcação. Essa leitura chegou até aos projetos maiores da empresa: um modelo de 26 metros já tem três unidades vendidas, sendo duas para o Brasil e uma para os Estados Unidos, com testes previstos para janeiro e previsão de lançamento na água em abril de 2027.
Essa busca por mais espaço social não é exclusividade dos iates grandes. A Fibrafort apresentou a Focker 288 GTS Explorer, de 8,62 metros, com proa em formato de sofá e uma plataforma traseira ampliada. O modelo, com preço inicial de R$ 810 mil, vendeu cinco unidades só durante o evento, o que representa mais de R$ 4 milhões em negócios fechados com um único lançamento. Isso mostra que a demanda por mais conforto e convivência a bordo atravessa diferentes faixas de preço e tamanho.
O caso mais extremo dessa escala apareceu na própria logística do evento. A Azimut não conseguiu levar ao salão o Grande 30 Metri, megaiate ainda em construção em Itajaí, e optou por transportar uma reprodução em tamanho real do flybridge: uma estrutura de seis metros de altura e 7,5 toneladas, reproduzindo os 105 m² do convés superior. O projeto faz parte de um ciclo de R$ 120 milhões em investimentos da empresa no Brasil até 2028, reforçando que o crescimento das embarcações também está puxando investimento industrial para o país.
Como esse movimento impacta o seu negócio
Se você atua na cadeia náutica, seja como fabricante, fornecedor ou prestador de serviço, vale observar que esse crescimento não é só um sinal de mercado aquecido: é uma mudança de demanda que exige adaptação de projeto, investimento em capacidade produtiva e atenção ao comportamento do consumidor brasileiro, que usa o barco de forma mais social do que em outros mercados. O setor já emprega cerca de 150 mil pessoas direta e indiretamente, e o fluxo de importação de componentes como motores, sistemas elétricos e resinas cresceu 23% no primeiro semestre de 2026 em relação ao ano anterior, o que indica aquecimento real na produção, não apenas nas vendas.
Para quem pensa em investir ou expandir operação nesse setor, o recado dos estaleiros é direto: o consumidor que começa com uma embarcação menor tende a subir de categoria, e, quando sobe, não busca apenas mais metros de casco. Ele quer mais área para receber pessoas, equipamentos melhores e um projeto que reproduza na água o mesmo estilo de vida que já tem em terra. Entender essa lógica pode ser decisivo para quem decide onde alocar investimento, desenvolver produto ou planejar capacidade de produção nos próximos anos.
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