Por que o Brasil investe pouco em infraestrutura e paga tanto de juros
20/10/2026 05:004 min de leituraAtualizado há 2 horas
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Trabalhista e Folha, atualizado a cada mudança de norma.
Se você sente que o custo de transporte no Brasil não para de subir e que obras prometidas nunca saem do papel, não é impressão sua. O país gasta hoje uma fatia enorme do orçamento público só para pagar juros da dívida, muito mais do que investe em estradas, ferrovias e portos. O resultado chega direto no seu negócio: frete mais caro, logística ineficiente e menos previsibilidade para quem depende de infraestrutura para vender, comprar ou distribuir produtos.
Nos últimos doze meses encerrados em agosto, o setor público gastou R$ 1,18 trilhão apenas com juros, o equivalente a 8,86% do PIB, segundo dados do Banco Central. A dívida bruta do país já soma 82,9% do PIB. Enquanto isso, o investimento em infraestrutura deve ficar perto de 2,4% do PIB neste ano, quando o ideal seria algo em torno de 4,6% do PIB, mantido por quinze a vinte anos, apenas para colocar os serviços de infraestrutura em dia. Essa diferença representa uma lacuna de cerca de R$ 270 bilhões por ano, valor que nem chega a um quarto do que o país gasta só com juros.
O que isso significa na prática para o seu negócio
A conta chega no seu frete. Cerca de dois terços das cargas no Brasil ainda viajam por rodovias, e mais da metade da malha avaliada está em condição regular, ruim ou péssima, segundo levantamento da Confederação Nacional do Transporte (CNT) de 2025. Isso eleva, em média, 31,2% o custo operacional do transporte rodoviário. As ferrovias, que seriam a opção mais barata para longas distâncias, respondem por apenas 15,5% das cargas transportadas no país, bem abaixo dos quase 30% registrados nos Estados Unidos, que têm extensão territorial parecida com a do Brasil, mas contam com 294 mil quilômetros de trilhos, contra apenas 31 mil aqui.
Essa logística cara não fica só no custo da transportadora: ela chega na gôndola do mercado e pesa mais no bolso de quem vive do salário. Para empresas que dependem de transporte de insumos ou produtos, o cenário significa custos operacionais mais altos, prazos menos confiáveis e menor competitividade, principalmente para quem exporta ou concorre com produtos importados.
Por que gastar mais não resolve o problema
Uma ideia recorrente no debate econômico é que o governo deveria simplesmente gastar mais para estimular o crescimento. Mas essa lógica, pensada para momentos de desemprego alto e economia parada, não se aplica ao cenário atual. O desemprego no Brasil está em 5,3%, o menor nível para o período desde 2012, e o próprio Banco Central descreve o mercado de trabalho como aquecido. Nesse contexto, mais gasto público tende a gerar inflação, e inflação pressiona a Taxa Selic para cima, encarecendo ainda mais o crédito para empresas e consumidores.
Também circula a ideia de que o Brasil poderia simplesmente deixar de pagar parte da dívida pública. Mas essa dívida não é um papel abstrato: segundo o Tesouro Nacional, fundos de previdência e de investimento detêm cerca de 45% da dívida pública interna, e instituições financeiras, que usam o dinheiro de correntistas, detêm outros 31%. Um calote na dívida afetaria diretamente a aposentadoria do trabalhador e as economias do pequeno poupador, como já aconteceu no confisco da poupança em 1990.
O preço do aperto fiscal na segurança e nos serviços
A falta de espaço no orçamento também afeta áreas essenciais para empresas, como segurança pública. Com 92% do orçamento federal de 2026 já comprometido com despesas obrigatórias, sobra pouco para investimento, manutenção e operação de serviços públicos. Episódios como a suspensão da emissão de passaportes pela Polícia Federal por falta de verba, em 2022, e alertas sobre riscos a operações de fronteira e abastecimento de viaturas, em 2024, mostram como o aperto fiscal se traduz em serviços mais frágeis, algo que impacta diretamente a segurança de operações empresariais em diversas regiões do país.
Por outro lado, há sinais de que soluções existem quando há previsibilidade. Nas rodovias que foram concedidas à iniciativa privada, os trechos em condição ruim ou péssima caíram 61,6% em apenas um ano, segundo a CNT. Mas concessões de longo prazo, que podem durar trinta anos, e ferrovias, que levam décadas para gerar retorno, exigem um ambiente fiscal estável. Quando o mercado duvida da capacidade do governo de honrar seus compromissos, os juros de longo prazo sobem e projetos de infraestrutura perdem viabilidade, mesmo os que já estão em andamento.
Para o seu negócio, o recado prático é direto: enquanto o equilíbrio fiscal não for uma prioridade concreta, é razoável esperar custos logísticos elevados, juros altos e menor previsibilidade para investimentos de longo prazo. Monitorar indicadores como a Selic, o câmbio e os planos de infraestrutura do governo ajuda a antecipar decisões sobre expansão, estoque e precificação. Buscar alternativas logísticas, negociar contratos com cláusulas de reajuste e manter reservas financeiras para enfrentar períodos de juros elevados são medidas que podem reduzir o impacto desse cenário no seu caixa.
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