Onda de recuperação judicial: por que tantas empresas quebram agora
01/09/2026 05:004 min de leituraAtualizado há 2 dias
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Trabalhista e Folha, atualizado a cada mudança de norma.
Se você tem acompanhado o noticiário econômico, deve ter notado uma sequência incomum de empresas conhecidas pedindo recuperação judicial. Casas Bahia, Marabraz, Tok&Stok, Mobly, St. Marché, Braskem, Raízen, Grupo Pão de Açúcar e Habib's são alguns dos nomes que passaram a negociar dívidas com credores nos últimos meses. Os motivos variam de empresa para empresa, mas o volume de casos revela algo maior: um número crescente de negócios, de portes e setores diferentes, está chegando ao mesmo ponto de ruptura financeira ao mesmo tempo.
Os números confirmam a percepção. Em maio de 2026, havia 6.341 empresas em recuperação judicial no chamado Monitor RGF, um levantamento que não inclui microempresas e cobre cerca de 2,7 milhões de companhias ativas no país. Esse total equivale a 2,32 empresas em recuperação para cada mil acompanhadas. No início de 2023, esse número era de 4.014 empresas. Ou seja, em pouco mais de três anos, a quantidade de empresas em recuperação judicial cresceu quase 58%. Os setores mais atingidos são comércio, indústria de transformação e agropecuária.
Quem é mais afetado
Ao contrário do que a cobertura de grandes marcas pode sugerir, o problema não está concentrado nas gigantes corporativas. As médias empresas respondem por 49% de todos os casos de recuperação judicial registrados, sendo o grupo com maior peso numérico na crise. Mas, proporcionalmente, quem sofre mais são as empresas de maior porte: a cada mil empresas muito grandes, 14,4 estão em recuperação judicial; entre as grandes, são 11,7 casos a cada mil. Já entre as médias, essa proporção cai para 2,5, e entre as microempresas é de apenas 0,1.
Isso significa que se você comanda uma empresa de porte médio ou grande, precisa entender que o risco de dificuldades financeiras aumentou, especialmente quanto maior for o porte do seu negócio e maior a dependência de crédito para financiar operações.
Como tudo começou: a herança da pandemia
Para entender a origem do problema, é preciso voltar à pandemia. Naquele período, com a taxa Selic em 2% ao ano e diversos programas de crédito subsidiado, muitas empresas recorreram a empréstimos baratos para sobreviver: pagar fornecedores, manter estoques e preservar empregos. Segundo a economista Carla Beni, professora da FGV, essa dívida não desapareceu quando a pandemia terminou. Em muitos casos, ela foi renovada, refinanciada ou trocada por novos títulos de dívida.
O problema é que, quando chegou a hora de renovar esses empréstimos, o custo do dinheiro havia mudado radicalmente. A Selic subiu de forma acentuada, e o que antes era uma dívida barata virou um compromisso caro. Para o economista Armando Castelar, ex-chefe do Departamento de Economia do BNDES, os juros altos não criaram os problemas de cada empresa, mas agravaram fragilidades que já existiam, sejam elas de gestão, de mercado ou de choques específicos de cada negócio. Ele destaca ainda que o Brasil já conviveu com juros ainda mais altos no passado, mas hoje o crédito representa uma fatia muito maior da economia, e empresas e famílias carregam mais dívidas do que antes. Além disso, o crescimento de instrumentos como debêntures, CRAs e CRIs ampliou as formas de captar dinheiro, mas também espalhou a dívida por mais canais da economia.
Juros altos explicam parte, mas não tudo
Um ponto importante para você entender é que os juros elevados não são a causa única das crises, e sim um fator que torna mais difícil conviver com problemas que já existiam. A trajetória da Braskem, por exemplo, está ligada a um passivo bilionário relacionado a um desastre geológico em Maceió, sem relação direta com o ciclo atual de juros. Já a Oi enfrenta dificuldades financeiras há mais de uma década, também por razões que não se resumem ao custo do crédito.
No varejo, setor que concentra o maior número de casos de recuperação judicial (1.333, segundo o levantamento), o economista Carlos Honorato, professor da FIA, reforça que os juros explicam parte do problema, mas não justificam tudo. O setor sofre pressão dos dois lados: precisa de crédito para financiar estoques e capital de giro, e ao mesmo tempo depende de um consumidor com dinheiro e disposição para comprar. Quando o crédito fica caro, os dois lados da equação apertam ao mesmo tempo. Some-se a isso a transformação provocada pelo comércio eletrônico, que aumentou a concorrência e exigiu que empresas tradicionais adaptassem lojas físicas, logística e modelos de negócio, muitas vezes sobre estruturas antigas e endividadas.
Na prática, isso significa que sua empresa pode estar exposta a esse cenário mesmo sem ter cometido erros de gestão. Se o seu negócio depende de crédito para capital de giro, financiamento de estoques ou renovação de dívidas, vale reavaliar prazos, custos financeiros e o nível de endividamento atual. Reduzir a dependência de refinanciamentos constantes, negociar condições com antecedência e acompanhar de perto o fluxo de caixa são medidas que ajudam a evitar que fragilidades antigas se transformem em uma crise irreversível justamente quando o dinheiro está mais caro.
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