Juros altos: por que empresas brasileiras podem ter dificuldade para refinanciar dívidas
06/08/2026 05:004 min de leituraAtualizado há 28 dias
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de BPO Financeiro, atualizado a cada mudança de norma.
Um relatório da Moody's Ratings divulgado nesta semana chamou atenção para um problema que pode afetar diretamente o custo e a disponibilidade de crédito no Brasil: o risco de refinanciamento de grandes empresas está subindo. A combinação de juros elevados, dívidas vencendo em prazo curto e um mercado internacional mais seletivo para captação está pressionando a qualidade de crédito de companhias de peso na economia brasileira. Para você que administra um negócio, esse tipo de sinal importa porque movimentos assim tendem a encarecer o crédito de forma generalizada, inclusive para empresas menores que dependem de fornecedores, bancos ou parceiros ligados a essas cadeias.
Entre janeiro e julho de 2026, a agência realizou 12 ações negativas envolvendo empresas brasileiras não financeiras e não reguladas. Isso não quer dizer que houve 12 casos de inadimplência, mas sim uma combinação de rebaixamentos de nota e mudanças de perspectiva. Atualmente, cerca de 14% da carteira de empresas acompanhadas pela Moody's está com perspectiva negativa ou em revisão para possível rebaixamento, um indicador de que o ambiente de crédito corporativo no país está mais tenso do que o normal.
O que muda para as empresas citadas
O relatório separa as companhias em dois grupos. No primeiro, estão empresas com avaliações específicas sobre reestruturação, aumento de endividamento ou perda de qualidade de crédito: Raízen, Cosan, Rumo, CSN, Amaggi, FS, OHI e Braskem. A Raízen, joint venture de Cosan e Shell, está reestruturando sua estrutura de capital, movimento que também pressionou a nota da Cosan, que carrega cerca de R$ 28 bilhões em dívidas atreladas a taxas flutuantes e ainda depende da venda de ativos para equilibrar as contas. Isso levou a rebaixamentos tanto da Cosan quanto da Rumo, sua subsidiária de logística ferroviária.
A CSN recebeu uma das avaliações mais duras do relatório, com risco de refinanciamento explicitamente classificado como maior. A empresa planeja levantar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões vendendo participações em infraestrutura e no segmento de cimento para reduzir dívidas, mas a Moody's alerta que despesas altas com juros e investimentos em mineração aumentam o risco de negociações sob estresse financeiro com credores, o que, pelos critérios da agência, pode ser interpretado como evento de inadimplência.
Outros casos ilustram riscos distintos. A Amaggi teve a perspectiva alterada para negativa após uma aquisição financiada por dívida, que deve elevar seu endividamento acima do considerado adequado para a nota atual. A FS, do setor de etanol de milho, foi rebaixada por planejar uma nova usina enquanto ainda constrói a anterior, o que deve manter a alavancagem alta até 2027, mesmo com o financiamento da expansão já garantido. Já a OHI, de transporte por helicóptero para o setor de energia, foi rebaixada por baixa geração de caixa e juros elevados. O caso mais grave é o da Braskem, cujo acordo de suspensão temporária com credores em junho foi tecnicamente classificado pela Moody's como um evento de inadimplência.
Quem tem vencimentos relevantes até 2028
Há um segundo grupo, formado por empresas com volumes expressivos de dívida vencendo até 2028, mas sem avaliação individual de dificuldade de pagamento nesse trecho do relatório. Fazem parte dele Natura, Movida, Eldorado Brasil Celulose, J&F, Iochpe-Maxion e BRF (controlada pela MBRF), além de CSN, Rumo e Amaggi, que já aparecem no primeiro grupo. Estar nessa lista não significa que essas empresas estejam inadimplentes ou em dificuldade imediata de caixa: a Moody's simplesmente destaca que elas terão de renovar volumes relevantes de dívida em um cenário de crédito mais caro e restrito, o que exige atenção redobrada ao planejamento financeiro.
| Empresa | Situação destacada | Rating / perspectiva |
|---|---|---|
| Cosan | Alta dívida em taxa flutuante, baixa cobertura de juros | B1, negativa |
| Rumo | Estresse ligado à reestruturação da Raízen | Ba3, negativa |
| CSN | Risco de refinanciamento elevado | Caa1, negativa |
| Amaggi (André Maggi Part.) | Alavancagem maior após aquisição da FS | Ba3, negativa |
| FS | Nova expansão antes de concluir a anterior | B1, estável |
| OHI | Baixa geração de caixa, juros altos | B3, negativa |
| Braskem | Acordo com credores tratado como default | Caa3, negativa |
Como isso pode afetar o seu negócio
É importante entender que um rebaixamento de nota ou uma perspectiva negativa não significa, por si só, que a empresa vai deixar de pagar suas dívidas amanhã. A perspectiva negativa indica maior chance de um corte futuro, e a estável indica menor probabilidade de mudança no curto prazo, não ausência total de risco. Mesmo assim, esses movimentos tendem a se refletir em condições de crédito mais rígidas para toda a cadeia produtiva ligada a essas companhias, seja em prazos de pagamento, taxas de financiamento ou exigências de garantia por parte de bancos e fornecedores.
Se sua empresa fornece produtos ou serviços para companhias citadas no relatório, ou depende de crédito bancário e de mercado de capitais, vale reforçar o acompanhamento de contratos, prazos de recebimento e exposição a variações de taxa de juros. Negociar prazos mais claros com clientes e fornecedores, revisar linhas de crédito disponíveis e evitar concentração de risco em poucos parceiros são medidas simples que ajudam a reduzir o impacto de um cenário de crédito mais restrito. O momento pede cautela, mas não pânico: o relatório é uma leitura de risco, não uma previsão fechada de inadimplência generalizada.
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