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IPCA acima do teto e Selic caindo: entenda o que isso significa

15/10/2026 11:354 min de leituraAtualizado há 1 hora

Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Trabalhista e Folha, atualizado a cada mudança de norma.

Em setembro, a inflação oficial medida pelo IPCA subiu 0,82% e o acumulado em 12 meses chegou a 4,58%, ultrapassando o teto de 4,5% estabelecido pela meta de inflação. Ao mesmo tempo, os economistas consultados pelo Banco Central passaram a esperar mais cortes na Selic até o fim do ano. Para quem olha de fora, parece contraditório: como a inflação pode estourar o limite e, ainda assim, os juros continuarem caindo? A resposta está na origem dessa alta de preços e nas apostas que o mercado está fazendo sobre o futuro.

O que explica a alta do IPCA

Grande parte do aumento de setembro veio da conta de energia elétrica, que subiu quase 8% e respondeu sozinha por uma fatia relevante do índice. O motivo é simples: um desconto na conta de luz que havia reduzido o preço em agosto deixou de valer em setembro, fazendo o valor voltar ao patamar normal. Ou seja, boa parte da "alta" é apenas a reversão de uma queda artificial do mês anterior. Some a isso aumentos pontuais em passagens aéreas, combustíveis e alimentos como tomate e batata, afetados por problemas de safra e clima, e você tem o retrato de um mês marcado por choques específicos, não por um aquecimento geral da economia.

Esse tipo de alta, chamada de choque de oferta, tem uma característica importante: juros altos não resolvem o problema na raiz. Subir a Selic não faz o tomate ficar mais barato, por exemplo. Por isso, o Banco Central e o mercado tendem a tratar esses aumentos como temporários, desde que não contaminem as expectativas de inflação para os próximos anos.

Por que o mercado ainda espera cortes de juros

É justamente essa leitura que explica o movimento visto no Boletim Focus, pesquisa que reúne as projeções de economistas do mercado: mesmo elevando a expectativa de inflação para 2026 pela quarta vez seguida, para 5,22%, o mercado reduziu a projeção da Selic para o fim deste ano, de 13,50% para 13,25%. Na prática, isso significa esperar dois cortes de 0,25 ponto percentual, nas reuniões de novembro e dezembro. A lógica é que a economia já está perdendo força o suficiente para conter o restante da inflação, mesmo com os juros caindo.

Essa visão é reforçada por projeções do FMI, que reduziu a estimativa de crescimento do Brasil para os próximos anos e prevê alta no desemprego até 2027. Um cenário de atividade mais fraca tende a ajudar a segurar os preços, dando ao Banco Central espaço para seguir cortando juros mesmo com a inflação ainda alta no retrovisor.

O ponto de atenção que pode mudar tudo

O risco real não está no número de um único mês, mas no que pode acontecer se esse choque pontual passar a influenciar decisões futuras de preços e salários. Quando empresas, sindicatos e contratos começam a embutir uma inflação mais alta nos reajustes do ano seguinte, o que era temporário se transforma em persistente. É por isso que a projeção de inflação para 2027, hoje em 4,30%, bem acima do centro da meta de 3%, preocupa mais o Banco Central do que o dado isolado de setembro. As decisões de juros de hoje só fazem efeito daqui a seis ou nove meses, então é esse horizonte mais distante que orienta o Copom.

Existe ainda uma consequência institucional: pelas regras da meta de inflação, se o índice ficar fora da faixa tolerada por seis meses seguidos, o presidente do Banco Central precisa explicar publicamente os motivos e as medidas para reverter a situação. Isso aumenta a pressão para que qualquer corte de juros seja bem justificado, e não apenas uma reação automática a uma melhora passageira.

O que puxou a inflação para cima

  • Energia elétrica: alta de 7,98% com fim de desconto temporário
  • Passagens aéreas: alta de 9,66%
  • Combustíveis: alta de 1,41%
  • Tomate e batata: alta de mais de 20% por safra e clima

O que sustenta a expectativa de corte

  • Economia perdendo fôlego, segundo o FMI
  • Desemprego projetado em alta até 2027
  • Choques de oferta tendem a ser temporários
  • Mercado já embute dois cortes de juros até dezembro

O que isso significa na prática para o seu negócio

Para empresas, esse cenário pede cautela na hora de reajustar preços e negociar contratos. Se o aumento de custos que você está vendo no seu setor também vier de choques pontuais, como energia ou combustíveis, vale evitar repasses automáticos e permanentes aos seus preços, já que parte dessa pressão tende a aliviar nos próximos meses. Por outro lado, se o seu negócio depende de crédito, a continuidade dos cortes na Selic pode significar um alívio gradual no custo de financiamentos, mesmo que a inflação ainda esteja alta no curto prazo.

Para quem tem recursos aplicados ou pensa em investimentos da empresa, o momento também exige atenção redobrada à composição entre aplicações pós-fixadas, prefixadas e atreladas à inflação, já que cada uma reage de forma diferente a esse cenário de juros em queda com inflação ainda pressionada. O mais importante agora é acompanhar as próximas decisões do Banco Central, previstas para a reunião de 3 e 4 de novembro, e ficar atento a sinais de que a inflação está, de fato, perdendo força, ou de que o choque atual pode se tornar mais duradouro do que o esperado.

Aviso: conteúdo informativo, produzido a partir de fontes públicas e reescrito pela nossa editoria. Não substitui orientação contábil ou fiscal personalizada. Tem uma dúvida sobre o assunto? Pergunte no portal.