Imóveis no interior de SP: por que o metro quadrado disparou e o que isso muda
22/10/2026 12:244 min de leituraAtualizado há 7 horas
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Trabalhista e Folha, atualizado a cada mudança de norma.
Se você tem negócio no interior de São Paulo, ou pensa em abrir um escritório fora da capital, vale entender um movimento que mudou o preço dos imóveis na região nos últimos cinco anos. Cidades como Campinas, São José dos Campos e Ribeirão Preto tiveram valorização imobiliária mais forte que a capital paulista, em um fenômeno que começou com a pandemia mas que continua gerando efeitos, inclusive na forma como empresas atraem profissionais qualificados.
O que aconteceu
Durante a pandemia, famílias de São Paulo passaram a buscar o interior por qualidade de vida, fugindo da rotina mais estressante da capital. Esse movimento não foi uniforme: segundo o economista Robson Gonçalves, da FGV, existem três perfis diferentes de quem migrou. Tem gente que só queria uma casa de campo para fins de semana e férias. Tem quem comprou um segundo imóvel para trabalhar em home office alguns dias da semana, mantendo a casa principal na capital. E tem quem realmente mudou a família inteira para o interior, trocando a casa grande em São Paulo por um imóvel menor que serve de pé-na-terra na capital.
Esse fluxo de pessoas trouxe consequências diretas para o mercado de trabalho local. A Superlógica, empresa de tecnologia sediada em Campinas, relata que passou a contratar executivos que haviam se mudado para a região e que antes eram difíceis de encontrar ali. Alguns desses profissionais aceitaram até salário menor em troca de qualidade de vida, segundo um dos fundadores da empresa. Se você é gestor e sua empresa fica no interior, esse pode ser um caminho real para atrair talentos que antes só estavam disponíveis na capital.
Quem foi mais afetado
Os números mostram que Campinas foi a cidade com maior valorização entre as analisadas: alta de 11,2% no preço médio do metro quadrado desde 2021, chegando a R$ 8,18 mil ao fim de setembro deste ano. São José dos Campos subiu 9,6%, para R$ 9,66 mil. Já a capital paulista, mesmo mantendo o maior preço médio de todas, cresceu apenas 3,6%, para R$ 12,2 mil, abaixo inclusive da média nacional.
| Cidade | Alta no preço do m² (5 anos) | Preço médio atual (m²) |
|---|---|---|
| Campinas | 11,2% | R$ 8,18 mil |
| São José dos Campos | 9,6% | R$ 9,66 mil |
| Ribeirão Preto | 5,9% | - |
| São Paulo (capital) | 3,6% | R$ 12,2 mil |
Em Ribeirão Preto, o efeito foi ainda mais intenso em outro segmento: condomínios fechados horizontais, voltados a compradores de alta renda. Segundo o CEO da Habiarte, empresa com forte atuação na região, a procura por terrenos para construir casas com piscina e área de lazer disparou logo no início da pandemia, superando em muito a oferta disponível. O resultado foi uma valorização de sete a oito vezes nos terrenos desde 2019, quando um lote custava cerca de R$ 400 o metro quadrado e hoje passa de R$ 4 mil. Casas prontas também subiram, entre quatro e cinco vezes de valor, a ponto de imóveis que custavam R$ 2 milhões ou R$ 3 milhões hoje serem negociados por R$ 8 milhões ou R$ 9 milhões.
Vale lembrar que nem todo mundo participou desse movimento. De acordo com Gonçalves, famílias com renda per capita de um a dois salários mínimos, que dependeriam de programas como o Minha Casa Minha Vida, têm menos mobilidade: não têm acesso a crédito nem flexibilidade de trabalho para migrar. O movimento de troca de residência ganha força mesmo a partir de três salários mínimos per capita, ou seja, entre famílias de classe média para cima. Isso é importante para quem vende imóveis ou presta serviços relacionados: o público que decide mudar de cidade por qualidade de vida tem um perfil de renda específico.
O que já começou a mudar
Com a volta mais forte ao trabalho presencial, que ganhou força a partir do segundo semestre de 2024 e se intensificou em 2025, parte do movimento de fuga da capital começou a perder fôlego. Executivos do setor já esperavam essa correção, já que viam a migração pandêmica como algo mais volátil do que estrutural. Um efeito colateral curioso: essa volta ao presencial encareceu o aluguel de escritórios de alto padrão na capital paulista, com escassez de espaço fazendo imóveis Triple A cobrarem mais de R$ 300 por metro quadrado ao mês.
Ainda assim, os dados de escrituras mostram que o interior não perdeu terreno de forma absoluta. Entre 2020 e os números mais recentes, a capital cresceu mais em participação (de 63,3% para 69,3% do total de escrituras), mas o interior segue 13,9% acima do patamar de 2020, mesmo com queda de 2,5% nos últimos anos. Isso indica que parte da demanda no interior tem fundamento próprio, independente do home office, enquanto outra parte realmente estava ligada ao trabalho remoto e já está arrefecendo.
Para quem administra negócio no interior paulista, seja no setor imobiliário, construção civil ou serviços ligados a esses públicos, o recado prático é observar o perfil de demanda da sua região: cidades com boa infraestrutura, como Jundiaí, Sorocaba e Campinas, tendem a manter atratividade mesmo com o fim do boom pandêmico, por oferecerem equilíbrio entre proximidade da capital e qualidade de vida. Já quem atua em nichos de alta renda, como em Ribeirão Preto, deve ficar atento ao custo crescente de terrenos e mão de obra para construção, que hoje torna mais caro construir do que comprar um imóvel pronto.
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